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sábado, 25 de outubro de 2014

Crime Entre Amigos por Paulo Seara

(Se perdeste, na semana passada, a estreia de Crime Entre Amigos, podes ler aqui o capítulo primeiro.)


Capítulo II – 2 de Novembro



Rogério deixou-se ficar atrás de um renque de arbustos despidos, o nevoeiro começava a entrar no campo quando apareceu Edmundo, que se dirigiu para o abrigo nu e improvisado. A conversa que o trouxe foi posta ali cruamente, os factos, por mais bizarros que parecessem, não os iludiam, existiria algum fundo de verdade? Rogério pensou tratar-se de um embuste, toda aquela história que o velho Gonçalves, tio-avô de Edmundo, contara em criança poderia ser uma fantasia ou, no misto de verdade e mito, a tal imagem da santa da aldeia poderia ser mesmo única e valeria a pena consumar um crime? Edmundo insistiu durante minutos, decompôs o caso, taxativo, garantindo-lhe, uma aparente  veracidade do conto porque tinha provas – mostrou-lhe umas fotocópias de uma pesquisa que fez acerca de um Conde Castelhano, que escondeu dentro da imagem da Santa, que  mandara fabricar, algumas preciosidades que saqueou durante uma incursão à Andaluzia. Mais tarde a imagem foi trazida para Portugal num dote, já depois da morte do cavaleiro  cruzado, e acabou, desconhecidamente, na igreja da sua aldeia, que pertencera a uma ordem religiosa por testamento ou doação.
A história abria vapores rubros num cérebro fervilhante de imaginação. Rogério, muito desconfiado, concordou que havia uma possibilidade de tudo ser verdade, mas umas linhas  escritas num papel não valem muito quando não existem imagens, toda a pesquisa poderia ser uma fraude, e os esforços de Edmundo que pesquisara anafadamente seriam infrutíferos. Além  disso, a ideia de realizar um assalto nem lembrava a Rogério como partida de Carnaval, ou de careto; um acto precipitado, em última instância, devido à morte do velho Gonçalves. Edmundo pretendia assumir a sua menina dos olhos verdes, e provar ao seu tio que existiam dentro da imagem luzentes rubis e esmeraldas. O tio sempre lhe respondeu que trouxesse provas, que não iria abrir a imagem a meio para tirar o ougo, se bem que sentia com o tacto que a Santa era oca, mas crendo sempre que no interior apenas existiria caruncho. Agora que morrera, o segredo estalava com amargura na boca dos dois amigos. Pretextar o assalto ao santuário era o mesmo que desenterrar o velho sacristão. Mas Edmundo estava decidido a limpar as águas e enriquecer com o lendário tesouro. Rogério pensou no caso mas, na  altura, não tinha uma resposta consistente, mesmo sabendo que no Porto, onde Edmundo vivia e trabalhava, encontraria maneira de vender as pedras medievais. Seria rico, ou um homem abastado, e escolheria uma vida melhor que o fastio dos seus dias. Não tiveram mais tempo, a conversa terminou e o ponto final ficaria para o outro dia.

SCREEN SHOT por A.A.M.

(Screen Shot é escrito segundo a nova variação ortográfica.)




Melancolica, dramática. Neste filme, Miranda July, realiza e interpreta uma visão do seu imaginário com suporte na rotina, no comum e essência de um relacionamento. Esta é a base que é posta à prova quando decidem adotar um gato, sendo o casal representado por ela e Hamish Linklater. Entre as suas práticas como artista, Miranda July traz para a cena o conceito realidade versus ficção que tão bem caracterizam o seu trabalho. A monotonia da ação é tão bela como o seu desenlace. É sem dúvida um exercício de estilo visual.



terça-feira, 21 de outubro de 2014

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Poesia de primeira, à Segunda-Feira

Há um esquisso de intimidade


Há um esquisso de intimidade
nesse aroma de café
que inaugura a manhã e que,
a conta-gotas,
se imiscui no cheiro
permanente dos livros.

Há um secreto aconchego
nessa luz de sol morno
que entra pela janela,
nesse silêncio cortado, a espaços,
pelas vozes abafadas dos vizinhos.

Sobram ecos da infância
no tilintar da loiça
dos almoços dos outros,
no aroma familiar
do assado de Domingo,
nas conversas cruzadas
que adivinho…

E tudo, de uma vez só,
me assalta:
o torpor das tardes de estio,
o cheiro dos limos
e das malápias,
as brincadeiras depois da escola,
os rostos amigos…

E tudo, como cenas
de um filme mudo,
agarro, como, num ápice,
tudo perco…


Luísa Félix

domingo, 19 de outubro de 2014

Undenied Pleasures por Nuno Baptista



Nedry, este trio composto por Chris Amblin, Matt Parker e Ayu Okakita é qualquer coisa de extraordinário. A base é em Londres, no entanto, são oriundos de Londres, Bristol e Osaka, respectivamente. Lançaram em 2012, "In a Dim Light", um álbum de grande qualidade, onde podemos encontrar traços de Massive Attack, Stereolab ou Air. Chris e Matt tratam das guitarras e sintetizadores e a Ayu conjuga tudo com uma voz soberba, neste "In a Dim Light" ela passa de murmúrios a gritos com uma classe impressionante, com a certeza de que nos mantém inequivocamente atentos a todos os movimentos. É um digníssimo sucessor do primeiro álbum intitulado "Condors". Temos aqui uma banda que cria músicas e atmosferas com mestria como podem comprovar pelo single "Violaceae".



sábado, 18 de outubro de 2014

Crime Entre Amigos por Paulo Seara

Crime Entre Amigos



"O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe."
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)
Filósofo e escritor francês


Capítulo I – 29 De Outubro a 1 De Novembro



O velho Gonçalves tinha acabado o dia exausto. Não pensando mais sequer no souto, tinha a percepção do seu cansaço, as suas pernas de oitenta anos tinham ganhado raízes de pedra. Durante o sono, morreu na tranquilidade de uma morte natural e indolor. Deixou as terras das quais viveu e alisou com ternura, e o seu ofício na sacristia que cumpria como um relógio. No primeiro de Novembro, encontrou-se a sua face com a daqueles que se lembravam de visitar os seus entes. Mas agora os que vinham, não os ia ver; e, numa dupla romagem, o povo prestou as exéquias ao defunto e aos velhos mortos do cemitério.


E consumando-se esta data, era observar uma centopeia de gente que viajou das mais diversas latitudes e que se deparou com o violento e patético caso de se sepultar um  morto no dia da homenagem aos mesmos. Foi este acaso que à tarde reuniu Rogério e Edmundo. Edmundo apenas largou alguns sussurros,  e com brevidade lhe disse que ao fim da manhã no dia seguinte deveria aparecer no campo de futebol e, com um aceno  final, deu um ímpeto à voz dizendo-lhe que era muito importante. Rogério ficou perplexo, o que poderia ser tão importante que necessitasse que aparecesse no campo de futebol, e logo aí, onde sempre aparecia a garotada; que, como ele, frequentava, ocasionalmente, o campo. Com os pensamentos baços, seguiu para casa, não respondendo  às interrogações da mulher, mais achegada, querendo com momices saber de algo que, de facto, nada é.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

SCREEN SHOT por A.A.M.

(Screen Shot é escrito segundo a nova variação ortográfica.)


Les glaneurs et la glaneuse [Os respigadores e a respigadora] (2000) Agnès Varda


Agnès Varda, que inicia a sua carreira artística na fotografia e que posteriormente marcaria o cinema com o seu estilo, tem neste documentário o início do seu ponto de viragem para a arte visual e vídeo-instalação. Com o intuito de dar a conhecer a vida entre a pobreza numa França desenvolvida, retrata, entre outros exemplos, o quotidiano rural, onde muito daquilo que os agricultores produzem não cumprem os requisitos padrão para o mercado de venda, é, como o título sugere, aproveitado pelas famílias que aí habitam. Este levantamento de testemunhos ganha um contorno político e social bem caracterizado dado o seu substrato, o que não sendo a sua intenção inicial, confessa,refere ser inevitável.