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segunda-feira, 23 de março de 2015

Poesia de primeira, à Segunda-Feira (#12/2015)

O vermelho por dentro


Estão envolvidos em corpos negros vermelhos por
dentro. Estão num barco sobre o mar e o mar é
negro. É de noite. O céu está negro e sobre a
água negra tudo é vermelho por dentro.

Os corpos eram negros
sobre o mar a água era de noite
não se via o vermelho por dentro
os corpos não se viam
eram barcos com os ventres todos negros
e as línguas eram de águas muito rentes
A sangue não sabia
não se via o vermelho por dentro
o céu a água envolvia
tudo envolvia nos vermelhos dentros
e os mares todas as noites estavam negros
negros por dentro
E a água volvia pelo céu tão negra
e à noite por dentro do mar todo vermelho
a noite era vermelha
e os barcos negros por dentro
E nos corpos a água negra era vermelha por dentro
e eles estavam envolvidos
e


Ana Hatherly

domingo, 22 de março de 2015

Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#12/2015)



Plastic Flowers é uma banda Grega de "Electrónica" que caminha entre as batidas, vagueia nas guitarras e na voz para nos conduzirem entre paisagens, com a finalidade de, como eles próprios o dizem "Disappear in the haze". Comparados a Boards Of Canada, Plastic Flowers devolvem-nos a tranquilidade com os seus ambientes.
Fiquem com "Dead Promises" deste "Aftermath".


sábado, 21 de março de 2015

O Aniversário da Marlene por Rogério Paulo E. Martins (#05/2015)

O aniversário da Marlene é um conto, da autoria de Rogério Paulo E. Martins, do qual será partilhado um parágrafo semanalmente (independentemente do seu comprimento). Sempre aos Sábados, pelas 21:30, não percas, um exclusivo da Pomar de Letras.


Lê os primeiros parágrafos.
I aqui.
II aqui.
III aqui.
IV aqui.



Olhei a estrada, à esquerda e à direita, não havia carros, tudo perfeito para poder correr e ganhar o balanço necessário para erguer o corpo sobre o malfadado portão, tudo, menos as duas raparigas que então passavam. Não sei porquê, mas tive a feliz ideia de esperar que estas passassem o meu prédio, antes de lançar-me no salto que havia de partir-me o tornozelo. Na verdade não parti, ficou estalado e não digo só, pois me disseram que era pior estalar um osso do que, verdadeiramente, parti-lo, assim, e sem qualquer rigor científico, declaro que foi um trambolhão fodido. Na ânsia de impressioná-las, com a minha excelsa habilidade e capacidades físicas, turvo do pensamento pela testosterona e cego pelo orgulho, calculei mal o salto, errei o movimento, tudo foi mal executado e só em pleno ar, completamente, extasiado pela adrenalina, me apercebi de que haveria de falhar aquele salto. Incrivelmente, tinha duas opções, uma era tentar corrigir o salto e arriscar estatelar-me, violentamente, contra o portão – vinha de corrida desde o outro lado da estrada – ou, meramente, largar-me e, num impulso, tentar corrigir o salto, em voo esplendoroso, tentado aterrar o mais escorreito possível. Escolhi, é claro, a única opção que me permitiria manter dignidade, certamente, aquele vulto voador cumpriria o seu propósito e elas haveriam de, atónitas, ver as capacidades daquele puto acrobata; se o navio afundava, eu haveria de afundar com ele, nunca antes.

sexta-feira, 20 de março de 2015

SCREEN SHOT por A.A.M. (#12/2015)

(Screen Shot é escrito segundo a nova variação ortográfica.)


Filme: Tim's Vermeer
Realização: Teller


Para descrever este documentário temos antes de apresentar dois dos mais marcantes intervenientes: Johannes Vermeer e Tim Jenison. O primeiro, certamente, conhecido por muitos, aclamado pintor do século XVII que especializou a sua técnica na representação de cenários bucólicos do quotidiano, em particularidade de ações domésticas no interior das habitações. De destacar a obra “A rapariga com o Brinco de Pérola” que já refletiu no cinema um filme dedicado à sua génese. O segundo interveniente, Tim Jenison, fundador de uma das maiores empresas de pós-produção de imagem, criação de software e hardware para suporte de vídeo em equipamentos informáticos. E como se reúnem os dois? Para além da admiração de Tim pela obra de Vermeer, tenta através de várias abordagens replicar a sua obra com a tecnologia atual, mas, sobretudo, desvendar os segredos latentes na perspetiva de um dos maiores mestres de pintura à vista da História da arte. Para descobrir ou redescobrir Vermeer.


quinta-feira, 19 de março de 2015

Animagem (#06/2015)

Desire (Desejo), é uma fantástica animação sobre um robô e a sua descoberta do mundo, novas ferramentas e ambições. A animação é acompanhada pela música "Desire" de Rob Fetters.




Gumball Wars (Guerra das Pastilhas), é uma animação da mesma equipa "Red Echo Post" e um bónus na edição de hoje de Animagem. ;)


segunda-feira, 16 de março de 2015

Poesia de primeira, à Segunda-Feira (#11/2015)

Song of the cut-price poets


1
What you´re reading now is written troughout in metre!
I say this because you no longer know (it seems)
What a poem is or what being a poet means.
Truly you might have thought up some way of treating us better.


O que estás a ler agora foi escrito em métrica.
Digo-o porque não conheces (parece-me)
O que é um poema ou o que significa ser poeta.
Tu podias pensar em algo que verdadeiramente nos melhor considerasse.


2
Tell me, has nothing struck you? Do you never wonder?
Did you realize new poetry has long since ceased to appear?
And do you know why? No. Well, here´s my answer:
People used to read poets once, and paid them. That´s clear.


Alguma coisa te atingiu, diz-me? Tu nunca te questionas?
Nunca te apercebeste há quanto tempo deixou de aparecer nova poesia?
Sabes porquê? Não. Bem, aqui vai a minha resposta.
No passado as pessoas ouviam poetas, e pagavam-lhes. É um facto.


3
But no one pays out hard cash for poems today
And that´s why no poetry´s written now
For the poet asks not just who will read, but who`ll pay
And if he´s not paid he won`t write. That´s the pass you have brought things to.


Mas hoje ninguém paga metal sonante por poemas
E é por isso que nenhuma poesia é escrita hoje
Pois o poeta não só pergunta quem o lê, mas quem a paga
E se ele não for pago, não escreve. Esta é a morte que provocaste à coisa.


4
But why should this be, he asks. Just what is my crime?
Haven`t I always done what was ordered by those who paid us?
Whatever I promised, that I fulfilled, given time.
And now too I hear from those of my friends who are painters.


Ele pergunta - Mas porque tem de ser assim? Qual é o meu crime?
Não fiz eu sempre tudo o que foi exigido por aqueles que nos pagam?
O que quer que eu tenha prometido, eu cumpri no seu tempo.
Mas agora também ouço dos pintores que são meus amigos.


5
That no more pictures are bought. Even though they say
The pictures too were flattering. Now they all remain unsold…
So what have you got against us? Why won´t you pay?
When you´re getting richer all the time, or so we`re told…


Que as pinturas não são vendidas. Eles ainda acrescentam
Que as pinturas são elogiosas. Agora todas permanecem por vender…
Mas o que é que tens contra nós? Porque não pagas?
Quando ficas mais rico dia após dia, ou assim nos dizem…


6
Didn`t we always, when we had enough to live on
Sing of the things that gave you pleasure on earth?
So they might give you pleasure anew: the flesh of your women
Sadness of autumn, a stream, the moon shining above…


Quando nós tínhamos o suficiente para viver, quão sempre
Cantámos sobre coisas que te davam prazeres terrenos?
Os mesmos devem novamente prazer dar: a carne de uma mulher
A tristeza do outono, um regato, no céu a lua brilhando…


7
The sweetness of your fruit, the rustle of falling leaves
And again the flesh of women. The eternity
Round you. All this we sang, sang too your beliefs
Your thoughts of the dust you become at the end of your journey.


A doçura dos teus frutos, o murmurar de folhas caídas
E novamente a carne das mulheres. A eternidade
À tua volta. Cantámos tudo isto, cantámos também as tuas convicções
Pensamentos teus do pó em que te transformarás no final da tua jornada.


8
But this was not all you paid for, and gladly. On golden chairs
Sitting at ease, you paid for the songs which we chanted
To those less lucky. You paid us for drying their tears
And for comforting all those whom you had wounded.


Mas não foi tudo isto que tu pagaste, felizmente. Na dourada cadeira
Sentando à vontade, tu pagaste pela canção que cantámos
Àqueles menos afortunados. Por secar as suas lágrimas tu pagaste
E para confortar todos aqueles que tu tenhas ferido.


9
We gave you so much. What did we ever refuse you?
Always submissive, we only asked to be paid.
What evil have we not done – for you! What evil!
And always contented ourselves with the scraps from your board.


Tanto te demos. O que é que recusamos de ti?
Perguntamos sempre submissos apenas para ser pagos.
Que pecados não fizemos nós – por ti! Que pecados!
E sempre nos contentamos com os restos da tua mesa.


10
To the shafts of your wagons sunk deep in blood and mire
Time and again we harnessed our splendid words
Called your huge slaughteryards Field of Honor
True steel, trusty companions your bloodstained swords.


Sangue e lama até aos cabos dos teus vagões afundados
Temos aproveitado as tuas esplêndidas palavras dia após dia
Chamado o teu grande matadouro campos de honra
Vero aço, companhia fiel das tuas espadas ensanguentadas.


11
On the forms you sent to us demanding taxes
We painted the most astonishing pictures for you.
Bellowing in chorus our hortatory verses
The people, as always, paid the taxes you claimed were due.


Sobre os formulários em que tu exigias impostos
Nós pintámos de ti as mais admiráveis imagens
Mugindo em coro a nossa oratória em verso
O povo sempre pagou os impostos por ti reclamados.


12
We studied works and mixed them together like potions
Using only the strongest and best of them all.
The people swallowed everything that we gave them
And came like lambs at your call.


Nós estudamos obras e misturámos tudo como poções
Usando de tudo o melhor e o mais forte
As pessoas engoliam tudo o que lhes dávamos
E vinham que nem cordeiro à tua palavra.


13
We always compared you only with what admired
Mostly with those who, like you, received unmerited tributes
From those who, starving like us, hung round their patrons for food
And your enemies we hunted down with poems like daggers.


Nós sempre vos comparámos com os vossos gostos
Sobretudo com aqueles como vós que receberam desmerecidos méritos
E com poemas como punhais caçámos os vossos inimigos
Aqueles que, famintos como nós, rodeiam os seus patrões por comida


14
Why then have you all of a sudden forsaken our market?
Don´t sit so long over meals! The scraps that we get will be cold.
Why don´t you commission something – portrait or panegyric?
Or have you come to think your plain selves are a treat to behold?


Por que é que então repentinamente esqueceu o nosso Mercado?
Às refeições não se senta longamente? Os restos que recebemos ficarão frios.
Por que é que tu não encomendas nada – retracto ou panegírico?
Ou tu reflectiste que as tuas prateleiras vazias são uma beleza para contemplar?


15
Watch out! You can`t dispense with us altogether!
If we could only compel you to look our way!
Believe me, sirs, today you would find our stuff cheaper.
You can`t exactly expect us to give it away.


Atenção! Tu não podes dispensar-nos de maneira nenhuma!
Se ao menos pudéssemos obrigar-te a olhar-nos!
Senhores acreditai, hoje podeis achar o nosso material barato.
Tu não podes supor que o deitemos completamente todo fora.


16
When I began what you`re reading now (but are you?)
I wanted each stanza to rhyme all through
Then thought: That´s too much work. Who`ll pay me for it?
And so regretfully left it. It´ll just have to do.


Quanto eu comecei o que tu agora lês (mas será que lês?)
Eu queria que rimasse cada estância em pleno
Lamentavelmente assim o deixei! E assim vai ter de bastar.
É que pensei: É muito trabalho. Quem é que me pagará por isso?


Bertolt Brecht - "The impact of cities - 1925-1928"
(Do livro Poems Part one. Tradução de versão inglesa por Paulo Seara.)

domingo, 15 de março de 2015

Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#11/2015)



Esta banda de "Punk Rock" Americana lançou em 2013 o EP "Chalk Tape". Musicalmente diverso, este EP desenvolve as influências psicadélicas que tínhamos no aclamado álbum anterior de 2012 "Ugly", tornando as músicas mais sofisticadas. A banda disse que as ideias foram sendo colocadas a giz num quadro negro e depois transpostas para este "Chalk Tape". Adicionam linhas de baixo para diferentes "grooves", novas mudanças para um florescimento melódico.
Fiquem com "Poison Arrow".