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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Livros que nos devoram por Luísa Félix (#09/2015)

Aparição de Vergílio Ferreira


«Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível.»


Vergílio Ferreira, Aparição, Bertrand Editora


Muitos são aqueles que leram Aparição, de Vergílio Ferreira; outros talvez tenham ficado apenas com uma ideia da intriga, das aulas de Português de 12.º ano, uma vez que, durante alguns anos, foi leitura obrigatória da disciplina.

A obra, publicada em 1959, tem como protagonista Alberto Soares, um recém-licenciado, que inicia a sua carreira de professor de liceu em Évora. A acção da obra decorre num período de nove meses, correspondente a um ano letivo, durante o qual Alberto convive com a família do Dr. Moura, antigo colega do pai, que tem três filhas – Cristina, ainda criança, Sofia e Ana. 

A história é contada por um narrador de primeira pessoa, que recorda, muitos anos depois, na sua casa da Beira Interior, onde a montanha se assume como espaço mítico, os acontecimentos que vivenciou nesse ano lectivo na cidade alentejana, com a lucidez que a distância temporal e a maturidade lhe proporcionam.

Quando chega a Évora, Alberto Soares é um jovem enlutado pela morte do pai. Começa por se instalar numa pensão no centro da cidade, optando depois por viver sozinho numa casa num ponto mais elevado, de onde pode observar a cidade, que, aos seus olhos, surge como um lugar labiríntico, luminoso, mitificado e, por isso, irreal.

Em Évora, o protagonista depara-se com uma sociedade conservadora, marcadamente estratificada e católica. Na escola, nas suas aulas, e no convívio com a família Moura, em particular com Sofia, com quem manterá um relacionamento algo tortuoso, procura transmitir as suas ideias filosóficas, nascidas da influência de Nietzsche e do existencialismo. 

Em particular depois de uma viagem que empreende nas férias da Páscoa, e que resulta numa viagem interior e de autoconhecimento, em que se dá uma espécie de aparição – do “eu” a si próprio -, Alberto Soares vê-se como uma espécie de messias portador de uma boa nova, que não pode deixar de transmitir a todos. As suas ideias embora encontrem resistência, acabam por abalar as certezas de Ana, a filha mais velha do Dr. Moura, «bem» casada com um engenheiro de «boa família», por despertar a tragicidade e a rebeldia de Sofia, a filha do meio, e a loucura de Carolino, o «Bexiguinha», um aluno que começa por admirá-lo, acabando, posteriormente, por se revoltar, na atitude da criatura que se insurge contra a divindade.

Mais do que um romance, Aparição constitui uma reflexão sobre a condição humana e sobre a sua relação com a divindade, e um documento do Portugal dos anos 50 do século XX, marcado pelo conservadorismo e pela repressão.


A autora, Luísa Félix, pode ser seguida no seu blogue, Letras são papéis.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Poesia de primeira, à Segunda-Feira (#43/2015)

spleen mirror


Há uma luz que resta conjugar:
tal como o verbo alienado -
dentro de uma acção repetida-
mente adiada - pela incerteza
maquinal de toda uma vida.
Observo a espessura dos dias
sinais absolutos de indiferença.
Assombram-nos como o vazio
do aço que se molda à cidade
fundida entre as nossas artérias.

Espelho-me na ferocidade
do todo pensamento.
Sinto a força terrível de uma
lâmina implacável & absoluta-
mente muda. Penso e adormeço,
sob as sentenças de um repouso
inacabado, uma tese por dissertar:
o mesmo erro repetido no tempo?
ou os braços maquinais
de toda esta vida?


Miguel Pires Cabral

domingo, 25 de outubro de 2015

Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#43/2015)



Woodkid, A.K.A. Yoann Lemoine, realizador Francês que até já esteve nomeado para os "Grammy Awards", afirmou sentir-se cansado de toda a panóplia de acontecimentos que cercam a realização, então virou-se para a criação de música e, meus amigos, ainda bem que o fez. Caracterizado pelo estilo "Symphonic", "The Golden Age" é um trabalho extraordinário, daquelas coisinhas que se ouve e se quer mais. Intenso, melódico, experimental e arrebatador, ou seja, o que se procura em algo novo.
Fiquem com "Run Boy Run" e deslumbrem-se.


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

SCREEN SHOT por A.A.M. (#43/2015)

(Screen Shot é escrito segundo a nova variação ortográfica.)


Filme: Back to the Future Trilogy [Trilogia Regresso ao Futuro] (1985)
Realização: Robert Zemeckis


O Futuro é agora! Numa semana tão aguardada como esta em que Martin McFlyy chegou ao futuro, respetivamente no dia 21 de Outubro, sugerimos não um, nem dois mas sim a fantástica trilogia de filmes de Regresso ao Futuro. De toda a obra de Robert Zemeckis, em que se destacam grandes títulos como: Forrest Gump, O Náufrago e Contacto; terá tido neste filme a sua grande afirmação no mundo do cinema ao trabalhar junto com Spielberg. Marcou toda uma geração com o seu conceito de máquina do tempo montada num DeLorean! Carro que na altura em que foi rodado o filme já nem era produzido, pois a empresa tinha falido anos antes, mas veio após essa aparição, e ao longo dos tempos, a tornar-se um item de culto. Doctor Brown, ou Doc, revolucionou não só o mundo do cinema bem como o mundo real, que com o auxílio da sua máquina nos permitiu dar uma espreitadela no futuro trazendo inspiração à criação de objectos que hoje são bem reais. Dos referidos de destacar o skate flutuante que "foi tornado real", e que é também o mais desejado pelos fãs, e as sapatilhas que a Nike criou especificamente para celebrar o aniversário da criação. Tal como no filme, as sapatilhas apertam-se sozinhas, tendo sido oferecido ao próprio Michael J. Fox um par, e os lucros dessa edição direcionados para doentes com Alzheimer. O Futuro pode não ser como pensámos, mas a ficção cientifica vai sempre andar um passo à frente para garantir que a realidade vai ser ainda mais espetacular. E agora, de Regresso ao Futuro.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Poesia de primeira, à Segunda-Feira (#42/2015)

Blindfold


Liberto a confusão, o caos persiste, o pluralismo negro da Quarta-Feira, no vértice de Quinta, inicia a sua dissertação nos braços da padecente agulha que martela as presunções… cuidadosamente abres o estômago amplamente, o líquido putrefacto é extraído nas palavras débeis de inerentes vicissitudes, no entanto coses novamente, entre a chuva, todos os órgãos com um fio de nylon… as lamacentas portas abrem-se, a fragilidade continua nas ligações criadas, o código binário de altifalantes pendurados ecoa nas activações sensoriais, cada membro é transposto para a perspectiva errática de ritualidades hipercirculares. Abraças o teu corpo, os sons tornam-se insuportáveis e, nos calamitosos ruídos exteriores, vendas os olhos…


Nuno Baptista

domingo, 18 de outubro de 2015

Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#42/2015)



Eguana é uma banda Russa de "Downtempo" que nos dá sons distintos e harmoniosos. "We Turn Into Water" é o nome do terceiro álbum e as atmosferas criadas são envolventes para o ouvinte se sentir relaxado a usufruir de um merecido prazer auditivo. Os temas são diversos para nos proporcionar um álbum digno de se tornar intemporal. Fiquem com "Jumping On The Water" e venham descobrir Eguana.


sábado, 17 de outubro de 2015

SCREEN SHOT por A.A.M. (#42/2015)

(Screen Shot é escrito segundo a nova variação ortográfica.)


Filme: Shaun the Sheep Movie [A Ovelha Choné - O Filme] (2015)
Realização: Mark Burton, Richard Starzak


Depois de incontornáveis e inesquecíveis bons momentos, que nos trouxe através da série animada, chega-nos Shaun em versão filme. Nesta aventura, a nossa Ovelha Choné, ajuda o seu dono a regressar a casa depois, de sem aperceber, se perder na cidade. A ovelha e seus companheiros, tomam como missão o salvamento do seu cuidador. Diversão clássica através de um método de animação em desuso. Na era do digital, a moldável plasticina não perde nem perderá o calor e o afeto dos espectadores.