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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Poesia de primeira, à Segunda-Feira (#44/2015)

Cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Fernando Pessoa - Álvaro de Campos

Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#44/2015)



Conhecidos pelos estilos Neoclassic, Downtempo e Trip-hop, Nazar Traunm & MoVoX lançaram, em 2013, Nothing Is Going Wrong, álbum que conta com a voz de Oda May e Chris para fornecer carácter a um trabalho que nos envolve com as suas variações rítmicas, como uma espécie de onda a passar por cima de nós quando estamos debaixo de água. Nothing Is Going Wrong poderá suscitar dúvidas, mas caro leitor, rapidamente desaparecem com a sonoridade criada.
Fiquem com Nothing Is Going Wrong, o álbum na integra.


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

SCREEN SHOT por A.A.M. (#44/2015)

(Screen Shot é escrito segundo a nova variação ortográfica.)


Realização: Fritz Lang


Enquadrado no estilo americano de Film Noir, Almas Perversas, realizado pelo mestre das artes cinematográficas Fritz Lang, é um filme de suspense criminal bem ao estilo da época, no dito ano de 1945. Acusado de ser imoral e corrupto, o filme chegou a ser proibido por retratar uma obsessão amorosa de um homem de meia-idade de classe média por uma rapariga da plebe com a qual combina um estratagema criminoso. Cenografia e técnica ao melhor nível, com um elenco conceituado, é na sua conceção um dos grandes filmes do género.


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Animagem (#22/2015)

Dark Side (*Desconhecido), literalmente Lado Negro, invocar-nos-á, certamente, à memória a saga Guerra das Estrelas - e o seu desconhecido poder, clamado por Darth Vader - ou o fantástico álbum dos britânicos Pink Floid, The Dark Side of the Moon. No primeiro caso, o dark side refere-se mesmo a um lado negro, sombrio, o uso maligno da Força; no caso dos segundos, "O Lado Negro da Lua", refere-se à face oculta da lua, aquela que nunca nos é revelada quando da Terra olhamos o astro satélite extasiados.

Dark Side centra-se (mais) na segunda acepção, no sentido do desconhecido e da sua amedrontada e insciente exploração, impelida pela inata curiosidade do ser consciente; porém, não descura o sentido sombrio também este inato aos seres vivos e ao nosso sentido de sobrevivência.




(*Tradução livre.)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Livros que nos devoram por Luísa Félix (#09/2015)

Aparição de Vergílio Ferreira


«Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível.»


Vergílio Ferreira, Aparição, Bertrand Editora


Muitos são aqueles que leram Aparição, de Vergílio Ferreira; outros talvez tenham ficado apenas com uma ideia da intriga, das aulas de Português de 12.º ano, uma vez que, durante alguns anos, foi leitura obrigatória da disciplina.

A obra, publicada em 1959, tem como protagonista Alberto Soares, um recém-licenciado, que inicia a sua carreira de professor de liceu em Évora. A acção da obra decorre num período de nove meses, correspondente a um ano letivo, durante o qual Alberto convive com a família do Dr. Moura, antigo colega do pai, que tem três filhas – Cristina, ainda criança, Sofia e Ana. 

A história é contada por um narrador de primeira pessoa, que recorda, muitos anos depois, na sua casa da Beira Interior, onde a montanha se assume como espaço mítico, os acontecimentos que vivenciou nesse ano lectivo na cidade alentejana, com a lucidez que a distância temporal e a maturidade lhe proporcionam.

Quando chega a Évora, Alberto Soares é um jovem enlutado pela morte do pai. Começa por se instalar numa pensão no centro da cidade, optando depois por viver sozinho numa casa num ponto mais elevado, de onde pode observar a cidade, que, aos seus olhos, surge como um lugar labiríntico, luminoso, mitificado e, por isso, irreal.

Em Évora, o protagonista depara-se com uma sociedade conservadora, marcadamente estratificada e católica. Na escola, nas suas aulas, e no convívio com a família Moura, em particular com Sofia, com quem manterá um relacionamento algo tortuoso, procura transmitir as suas ideias filosóficas, nascidas da influência de Nietzsche e do existencialismo. 

Em particular depois de uma viagem que empreende nas férias da Páscoa, e que resulta numa viagem interior e de autoconhecimento, em que se dá uma espécie de aparição – do “eu” a si próprio -, Alberto Soares vê-se como uma espécie de messias portador de uma boa nova, que não pode deixar de transmitir a todos. As suas ideias embora encontrem resistência, acabam por abalar as certezas de Ana, a filha mais velha do Dr. Moura, «bem» casada com um engenheiro de «boa família», por despertar a tragicidade e a rebeldia de Sofia, a filha do meio, e a loucura de Carolino, o «Bexiguinha», um aluno que começa por admirá-lo, acabando, posteriormente, por se revoltar, na atitude da criatura que se insurge contra a divindade.

Mais do que um romance, Aparição constitui uma reflexão sobre a condição humana e sobre a sua relação com a divindade, e um documento do Portugal dos anos 50 do século XX, marcado pelo conservadorismo e pela repressão.


A autora, Luísa Félix, pode ser seguida no seu blogue, Letras são papéis.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Poesia de primeira, à Segunda-Feira (#43/2015)

spleen mirror


Há uma luz que resta conjugar:
tal como o verbo alienado -
dentro de uma acção repetida-
mente adiada - pela incerteza
maquinal de toda uma vida.
Observo a espessura dos dias
sinais absolutos de indiferença.
Assombram-nos como o vazio
do aço que se molda à cidade
fundida entre as nossas artérias.

Espelho-me na ferocidade
do todo pensamento.
Sinto a força terrível de uma
lâmina implacável & absoluta-
mente muda. Penso e adormeço,
sob as sentenças de um repouso
inacabado, uma tese por dissertar:
o mesmo erro repetido no tempo?
ou os braços maquinais
de toda esta vida?


Miguel Pires Cabral

domingo, 25 de outubro de 2015

Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#43/2015)



Woodkid, A.K.A. Yoann Lemoine, realizador Francês que até já esteve nomeado para os "Grammy Awards", afirmou sentir-se cansado de toda a panóplia de acontecimentos que cercam a realização, então virou-se para a criação de música e, meus amigos, ainda bem que o fez. Caracterizado pelo estilo "Symphonic", "The Golden Age" é um trabalho extraordinário, daquelas coisinhas que se ouve e se quer mais. Intenso, melódico, experimental e arrebatador, ou seja, o que se procura em algo novo.
Fiquem com "Run Boy Run" e deslumbrem-se.