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sábado, 2 de abril de 2016

Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires 7/10 (Obra de Paulo Seara)

Lê, ou relê, as partes anteriores; 12345; 6;


Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires



7


Após alguns meses de indefinição, a namorada do Aires deu o primeiro passo em direcção ao Beijo Negro. Estivera a ler um artigo na Cosmopolitan que a esclareceu bastante. Foi um dia muito positivo para o Aires, naquela tarde tinha mudado uma tomada eléctrica da casa de banho. A namorada adorou aquela demonstração de competência que só aparece nos homens com muitos pêlos no peito. Muito contente, o Aires brincou com a situação e falou pela primeira vez, em 3 anos, da teoria das propriedades sépticas do mijo.

A tarde de Domingo perfumava o Aires até que a namorada o descobriu a misturar as bebidas com a pila. Revoltada com tamanha podridão deixou a casa do Aires e nunca mais lhe falou. Naquele momento o Aires sentiu-se nu, observado por todos. Toda a excitação que sentia transformou-se em gelo com vinte e cinco mil anos.

Livros que nos devoram por Luísa Félix (#03/2016)

“Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes”, de Mathias Énard


«- Vou dizer-te como se aprende. Não há outra maneira. Apoia o braço esquerdo na mesa à tua frente, com a mão meio aberta, com o polegar mole, e com a mão direita desenha aquilo que vês, uma vez, duas vezes, mil vezes. Não precisas de modelo nem de professor. Numa mão está tudo. Ossos, movimentos, matérias, proporções, e até pregueados. Confia no que vês. Repete até saberes. Depois faz a mesma coisa com o pé, poisando-o num banquinho; a seguir com a cara, servindo-te de um espelho. Só seguidamente poderás passar para um modelo, para as posições.»


Aos 31 anos, depois de ter criado a sua obra “David”, Miguel Ângelo Buonarroti é considerado, por muitos, o melhor artista do seu tempo.

Por falta do prometido pagamento e por ter sido escorraçado pelo papa, como um indigente, o escultor deixa a meio o monumental túmulo papal que Júlio II lhe encomendara para a Basílica de São Pedro, ainda em construção. Como desforra, decide aceitar o pedido do sultão Bayazid, que lhe promete avultado pagamento em troca de um projecto para uma ponte que ligue as duas margens do chamado Corno de Ouro. O artista florentino desembarca, assim, no porto de Constantinopla no dia 13 de Maio de 1506. Esperam-no o dragomano ou intérprete grego, ao qual o narrador, em diálogo aberto com o leitor, decide, de improviso, apelidar de Manuel e o rico comerciante florentino Maringhi, há muito instalado na cidade. Manuel, mais do que um intérprete e um cicerone, revelar-se-á um amigo.


Enquanto está na cidade, Miguel Ângelo passa grande parte do seu tempo no quarto que alugou em casa de Maringhi, a desenhar, a ouvir Manuel a ler poesia persa e a fazer listas aleatórias de palavras, que regista num caderno. Nasce, entretanto, entre ele e Mesihi, um poeta boémio, protegido do vizir Ali Paxá, uma amizade. É o poeta, que acaba por desenvolver pelo florentino um sentimento que excede a amizade, que lhe dá a conhecer as ruas e os edifícios de Constantinopla, assim como a vida nocturna. Miguel Ângelo fica fascinado por tudo o que vê, mas a sua atenção centra-se, em particular, na monumentalidade arquitectónica e ornamental da basílica de Santa Sofia e numa figura ambígua que supõe ser uma bailarina andaluza. É, aliás, esta figura que toma, em alguns capítulos, o lugar do narrador e que parece sussurrar, ao ouvido de um Miguel Ângelo adormecido, palavras de quem sofre um amor não correspondido.

“Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes”, ainda que seja uma obra pouco extensa, de capítulos curtos, revela-se uma viagem bela e intensa, que nos proporciona o contacto com uma cultura fascinante e com a obra de um dos maiores vultos da arte do Renascimento. Além disso, há, na obra, inúmeras referências a técnicas e materiais de pintura. Para ler de um fôlego.


A autora, Luísa Félix, pode ser seguida no seu blogue, Letras são papéis.

Animagem (#07/2016)

Piratas e uma história de amor, "Goutte d'Or".


terça-feira, 29 de março de 2016

Poesia de primeira, à Segunda-Feira (#13/2016)

(É uma Segunda metafórica...)


Escrever 


Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, como isto, continuando...

E gostava, para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor... medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo? 


Irene Lisboa

segunda-feira, 28 de março de 2016

Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#13/2016)

Syd Arthur - On An On - 2012





Syd Arthur é uma banda que conjuga guitarras progressivas com Folk e letras fortes que captam a atenção dos ouvintes. "On An On", de 2012, mostra um controlo rítmico nos "riffs" que poucos conseguem. Os elementos progressivos encaixam na perfeição fazendo então um combo de energia extraordinário, conseguindo que as músicas se tornem numa espécie de vício inquebrável. A confirmar está a "Ode To The Summer".


domingo, 27 de março de 2016

Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires 6/10 (Obra de Paulo Seara)

Lê, ou relê, as partes anteriores; 1234; 5;


Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires



6


Um cliente do Aires, teve um dia mau em casa e não estava com coragem para enfrentar a mulher. Tudo por causa de uma tomada eléctrica que provocou um curto circuito durante a madrugada. A vizinhança alertada, chamou os bombeiros que surpreenderam a mulher dormindo nua em casa. Nessa noite ele tinha estado de serviço pois era segurança num banco. Estupefacto, o Aires alertou-o para ter cuidado com as tomadas eléctricas e para que nunca lhes mijasse em cima. E abordando-o mais tarde, disse-lhe, confessionalmente, que o mijo era bom para limpar as feridas pois tinha o mesmo efeito que a água oxigenada. Depois de uma longa conversa o Aires decidiu oferecer uma dupla dose de Martini misturada com o pénis. Teve pena do gajo.
Naquela conversa ninguém falou de Beijos Negros.