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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Poesia de primeira, à... Quinta-Feira (#14/2016)

No dia em que se celebram 123 anos sobre o seu nascimento, ficamos com A Cena do Ódio de José Sobral de Almada Negreiros e a voz de Mário Viegas, falecido há 20 anos em dia das mentiras.


A Cena do Ódio




Ergo-Me Pederasta apupado d’imbecis,
Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado,
e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu!
Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés!
O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes,
Inferno a arder o Meu Cantar!
Sou Vermelho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes
dos cossacos!
Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula!
Sou Génio de Zaratrusta em Taças de Maré-Alta!
Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol!
Ladram-me a Vida por vivê-la
e só Me deram Uma!
Hão-de lati-la por sina!
Agora quero vivê-la!
Hei-de Poeta cantá-la em Gala sonora e dina
Hei-de Glória desanuviá-la!
Hei-de Guindaste içá-la Esfinge
da Vala pedestre onde Me querem rir!
Hei-de trovão-clarim levá-la Luz
às Almas-Noites do Jardim das Lágrimas!
Hei-de bombo rufá-la pompa de Pompeia
nos Funerais de Mim!
Hei-de Alfange-Mahoma
cantar Sodoma na Voz de Nero!
Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre,
hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido...
Hei-d’ Átila, hei-de Nero, hei-de Eu,
cantar Atila, cantar Nero, cantar Eu!
Sou Narciso do Meu Ódio!
- O Meu ódio é Lanterna de Diógenes,
é cegueira de Diógenes,
é cegueira da Lanterna!
(O Meu Ódio tem tronos d’ Herodes,
histerismos de Cleópatra, perversões de Catarina!)
O Meu ódio é Dilúvio Universal sem Arcas de Noé, só
Dilúvio Universal!
e mais Universal ainda:
Sempre a crescer, sempre a subir...
até apagar o Sol!
Sou trono de Abandono, mal-fadado,
nas iras dos Bárbaros meus Avós.
Oiço ainda da Berlinda d’Eu ser sina
gemidos vencidos de fracos,
ruídos famintos de saque,
ais distantes de Maldição eterna em Voz antiga!
Sou ruínas rasas, inocentes
como as asas de rapinas afogadas.
Sou relíquias de mártires impotentes
sequestradas em antros do Vício.
Sou clausura de Santa professa,
Mãe exilada do Mal, Hóstia d’Angústia no Claustro,
freira demente e donzela,
virtude sozinha da cela
em penitência do sexo!
Sou rasto espezinhado d’Invasores
que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o.
Sou a Raiva atávica dos Távoras,
o sangue bastardo de Nero,
o ódio do último instante
do Condenado inocente!
A podenga do Limbo mordeu raivosa
as pernas nuas da minh’Alma sem baptismo...
Ah! que eu sinto, claramente,
que nasci de uma praga de ciúmes!
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a Alma dos Bórgias a
penar!
Tu, que te dizes Homem!
Tu, que te alfaiatas em modas
e fazes cartazes dos fatos que vestes
p’ra que se não vejam as nódoas de baixo!
Tu, qu’inventaste as Ciências e as Filosofias,
as Políticas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectáculo
Tu, que aperfeiçoas sabiamente a arte de matar.
Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho Marítimo da índia
e as duas Grandes Américas,
e que levaste a chatice a estas Terras
e que trouxeste de lá mais gente p’raqui
e qu’inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu’inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu’inda foste inventar submarinos
p’ra te chateares também por debaixo d’água,
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres
Tu consegues ser cada vez mais besta
e a este progresso chamas Civilização!
Vai vivendo a bestialidade na Noite dos meus olhos,
vai inchando a tua ambição-toiro
‘té que a barriga te rebente rã.
Serei Vitória um dia - Hegemonia de Mim!
e tu nem derrota, nem morto, nem nada.
O Século-dos-Séculos virá um dia
e a burguesia será escravatura
se for capaz de sair de Cavalgadura!
Hei-de, entretanto, gastar a garganta
a insultar-te, ó besta!
Hei-de morder-te a ponta do rabo
e por-te as mãos no chão, no seu lugar!
Ahi! Saltimbanco-bando de bandoleiros nefastos!
Quadrilheiros contrabandistas da Imbecilidade!
Ahi! Espelho-aleijão do Sentimento,
macaco-intruja do Alma-realejo!
Ahi! macrelle da Ignorância!
Silenceur do Génio-Tempestade!
Spleen da Indigestão!
Ahi! meia-tigela, travão das Ascensões!
Ahi! povo judeu dos Cristos mais que Cristo!
Ó burguesia! Ó ideal com i pequeno
Ó ideal ricócó dos Mendes e Possidónios
Ó cofre d’indigentes
Cuja personalidade é a moral de todos!
Ó geral da mediocridade!
Ó claque ignóbil do Vulgar, protagonista do normal!
Ó Catitismo das lindezas d’estalo!
Ahi! lucro do fácil,
cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos!
Ai! dique-impecilho do Canal da Luz!
Ó coito d’impotentes
a corar ao sol no riacho da Estupidez!
Ahi! Zero-barómetro da Convicção!
bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais!
Ahi! Plebeísmo Aristocratizado no preço do panamá!
erudição de calça de xadrez!
competência de relógio d’oiro
e correntes com suores do Brasil,
e berloques de cornos de búfalo!
E eu vivo aqui desterrado e Job
da Vida-gémea d’Eu ser feliz!
E eu vivo aqui sepultado vivo
na Verdade de nunca ser Eu!
Sou apenas o Mendigo de Mim-Próprio,
órfão da Virgem do meu sentir.
E como queres que eu faça fortuna
se Deus, por escárnio, me deu Inteligência,
e não tenho sequer, irmãs bonitas
nem uma mãe que se venda para mim?
(Pesam quilos no Meu querer
as salas de espera de Mim.
Tu chegas sempre primeiro...
Eu volto sempre amanhã...
Agora vou esperar que morras.
Mas tu és tantos que não morres...
Vou deixar d’esp’rar que morras
- Vou deixar d’esp’rar por mim!)
Ah! que eu sinto, claramente, que nasci
de uma praga de ciúmes!
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a alma dos Bórgias a penar!
E tu, também, vieille-roche, castelo medieval
fechado por dentro das tuas ruínas!
Fiel epitáfio das crónicas aduladoras!
E tu também ó sangue azul antigo
que já nasceste co’a biografia feita!
Ó pajem loiro das cortesias-avozinhas!
Ó pergaminho amarelo-múmia
das grandes galas brancas das paradas
e das Vitórias dos torneios-lotarias
com donzelas-glórias!
Ó resto de cetros, fumo de cinzas!
Ó lavas frias do Vulcão pirotécnico
com chuvas d’oiros e cabeleiras prateadas!
Ó estilhacos heráldicos de Vitrais
despegados lentamente sobre o tanque do silêncio!
Ó Cedro secular
debruçado no muro da Quinta sobre a estrada
a estorvar o caminho da Mala-posta!
E vós também, ó Gentes de Pensamento,
ó Personalidades, ó Homens!
Artistas de todas as partes, cristãos sem pátria,
Cristos vencidos por serem só Um!
E vós, ó Génios da Expressão,
e vós também, ó Génios sem Voz!
ó além-infinito sem regressos, sem nostalgias,
Espectadores gratuitos do Drama-Imenso de Vós-Mesmos!
Profetas clandestinos
do Naufrágio de Vossos Destinos!
E vós também, teóricos-irmãos-gémeos
do meu sentir internacional!
Ó escravos da Independência!
Vós que não tendes prémios
por se ter passado a vez de os ganhardes,
e famintos e covardes
entreteis a fome em revoltas do Mau-Génio
no boémia da bomba e da pólvora!
E tu também, ó Beleza Canalha
Co’a sensibilidade manchada de vinho!
Ó lírio bravo da Floresta-Ardida
à meia-porta da tua Miséria!
Ó Fado da Má-Sina
com ilustrações a giz
e letra da Maldição!
Ó fera vadia das vielas açaimada na Lei!
Ó xale e lenço a resguardar a tísica!
Ó franzinas do fanico
co’a sífilis ao colo por essas esquinas!
Ó nu d’aluguer
na meia-luz dos cortinados corridos!
Ó oratório da meretriz a mendigar gorjetas
p’rá sua Senhora da Boa-Sorte!
Ó gentes tatuadas do calão!
carro vendado da Penitenciária!
E tu também, ó Humilde, ó Simples!
enjaulados na vossa ignorância!
Ó pé descalço a calejar o cérebro!
Ó músculos da saúde de ter fechada a casa de pensar!
Ó alguidar de açorda fria
na ceia-fadiga da dor-candeia!
Ó esteiras duras pra dormir e fazer filhos!
Ó carretas da Voz do Operário
com gente de preto a pé e filarmónica atrás!
Ó campas rasas, engrinaldadas,
com chapões de ferro e balões de vidro!
Ó bota rota de mendigo abandonada no pó do caminho!
Ó metamorfose-selvagem das feras da cidade!
Ó geração de bons ladrões crucificados na Estupidez!
Ó sanfona-saloia do fandango dos campinos!
Ó pampilho das Lezírias inundadas de Cidade!
ó trouxa d’aba larga da minha lavadeira,
Ó rodopio azul da saia azul de Loures!
E vós varinas que sabeis a sal
as Naus da Fenícia ainda não voltaram?!
E vós também, ó moças da Província
que trazeis o verde dos campos
no vermelho das faces pintadas!
E tu também, ó mau gosto
co’a saia de baixo a ver-se
e a falta d’educação!
Ó oiro de pechisbeque (esperteza dos ciganos)
a luzir no vermelho verdadeiro da blusa de chita!
Ó tédio do domingo com botas novas
e música n’Avenida!
Ó santa Virgindade
a garantir a falta de lindeza!
Ó bilhete postal ilustrado
com aparições de beijos ao lado!
E vós ó gentes que tendes patrões,
autómatos do dono a funcionar barato!
Ó criadas novas chegadas de fora p’ra todo o serviço!
Ó costureiras mirradas,
emaranhadas na vossa dor!
Ó reles caixeiros, pederastas do balcão,
a quem o patrão exige modos lisonjeiros
e maneiras agradáveis pròs fregueses!
Ó Arsenal fadista de ganga azul e coco socialista!
Ó saídas pôr-do-sol das Fábricas d’Agonia!
E vós também, ó toda a gente, que todos tendes patrões!
E vós também, nojentos da Política
que explorais eleitos o Patriotismo!
Macrots da Pátria que vos pariu ingénuos
e vos amortalha infames!
E vós também, pindéricos jornalistas
que fazeis cócegas e outras coisas
à opinião pública!
E tu também roberto fardado:
Futrica-te espantalho engalonado,
apoia-te das patas de barro,
Larga a espada de matar
e põe o penacho no rabo!
Ralha-te mercenário, asceta da Crueldade!
Espuma-te no chumbo da tua Valentia!
Agoniza-te Rilhafoles armado!
Desuniversidadiza-te da doutorança da chacina,
da ciência da matança!
Groom fardado da Negra,
pária da Velha!
Encaveira-te nas esporas luzidias de seres fera!
Despe-te da farda,
desenfia-te da Impostura, e põe-te nu, ao léu
que ficas desempregado!
Acouraça-te de senso,
vomita de vez o morticínio,
enche o pote de raciocínio,
aprende a ler corações,
que há muito mais que fazer
do que fazer revoluções!
Ruína com tuas próprias peças-colossos
as tuas próprias peças colossais,
que de 42 a 1 é meio-caminho andado!
Rebusca no seres selvagem
no teu cofre do extermínio
o teu calibre máximo!
Põe de parte a guilhotina,
dá férias ao garrote!
Não dês língua aos teus canhões,
nem ecos às pistolas,
nem vozes às espingardas!
– São coisas fora de moda!
Põe-te a fazer uma bomba
que seja uma bomba tamanha
que tenha dez raios da Terra.
Põe-lhe dentro a Europa inteira,
os dois pólos e as Américas,
a Palestina, a Grécia, o mapa
e, por favor, Portugal!
Acaba de vez com este planeta,
faze-te Deus do Mundo em dar-lhe fim!
(Há tanta coisa que fazer, Meu Deus!
e esta gente distraída em guerras!)
Eu creio na transmigração das almas
por isto de Eu viver aqui em Portugal.
Mas eu não me lembro o mal que fiz
durante o Meu avatar de burguês.
Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...
Eu teria tido certamente mais juízo,
teria sido até o mártir São Sebastião!
E inda há quem faça propaganda disto:
a pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões!
Se ao menos isto tudo se passasse
numa Terra de mulheres bonitas!
Mas as mulheres portuguesas
são a minha impotência!
E tu, meu rotundo e pançudo-sanguessugo,
meu desacreditado burguês apinocado
da rua dos bacalhoeiros do meu ódio
co’a Felicidade em casa a servir aos dias!
Tu tens em teu favor a glória fácil
igual à de outros tantos teus pedaços
que andam desajuntados neste Mundo,
desde a invenção do mau cheiro,
a estorvar o asseio geral.
Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio
que Deus perdeu de vista o Adão de barro
e com pena fez outro de bosta de boi
por lhe faltar o barro e a inspiração!
E enquanto este Adão dormia
os ratos roeram-lhe os miolos,
e das caganitas nasceu a Eva burguesa!
Tu arreganhas os dentes quando te falam d’Orpheu
e pões-te a rir, como os pretos, sem saber porquê.
E chamas-me doido a Mim
que sei e sinto o que Eu escrevi!
Tu que dizes que não percebes;
rir-te-has de não perceberes?
Olha Hugo! Olha Zola, Cervantes e Camões,
e outros que não são nada por te cantarem a ti!
Olha Nietzche! Wilde! Olha Rimbaub e Dowson!
Cesário, Antero e outros tantos mundos!
Beethoven, Wagner e outros tantos génios
que não fizeram nada,
que deixaram este mundo tal qual!
Olha os grandes o que são estragados por ti!
O teu máximo é ser besta e ter bigodes.
A questão é estar instalado.
Se te livras de burguês e sobes a talento, a génio,
a seres alguém,
o Bem que tu fizeres é um décimo de seres fera!
E de que serve o livro e a ciência
se a experiência da vida
é que faz compreender a ciência e o livro?
Antes não ter ciências!
Antes não ter livros!
Antes não ter Vida!
Eu queria cuspir-te a cara e os bigodes,
quando te vejo apalermado p’las esquinas
a dizeres piadas às meninas,
e a gostares das mulheres que não prestam
e a fazer-lhes a corte
e a apalpar-lhes o rabo,
esse tão cantado belo cu
que creio ser melhor o teu ideal
que a própria mulher do cu grande!
E casaste-te com Ela,
porque o teu ideal veio pegado a Ela,
e agora à brocha limpas a calva em pinga
à coca de cunhas p’ró Cunha examinador
do teu décimo nono filho
dezanove vezes parvo!
(É o caso mais exemplar de Constância e fidelidade
a tua história sexual co’a Felisberta,
desde o teu primogénito tanso
‘té ao décimo nono idiota.)
‘Té no matrimónio te maldigo, infame cobridor!
Espécie de verme das lamas dos pântanos
que de tanto se encharcar em gozos
o seu corpo se atrofiou
e o sexo elefantizado foi todo o seu corpo!
Em toda a parte tu és o admirador
e em toda a parte a tua ignorância
tem a cumplicidade da incompetência
dos que te falam ‘té dos lugares sagrados.
Sim! Eu sei que tu és juiz
e qu’inda ontem prometeste a tua amante,
despedindo-a num beijo de impotente,
a condenação dos réus que tivesses
se Ela faltasse à matinée da Boa-Hora!
Pulha! E és tu que do púlpito
d’essa barriga d’Água da Curia
dás a ensinança de trote
aos teus dezanove filhos?!
Cocheiros, contai: dezanove!!!
Zute! bruto-parvo-nada
que Me roubaste tudo:
‘té Me roubaste a Vida
e não Me deixaste nada!
nem Me deixaste a Morte!
Zute! poeira-pingo-micróbio
que gemes pequeníssimos gemidos gigantes
grávido de uma dor profeta colossal.
Zute! elefante-berloque parasita do não presta!
Zute! bugiganga-celulóide-bagatela!
Zute, besta!
Zute, bácoro!!
Zute, merda!!!
Em toda a parte o teu papel é admirar,
mas (caso inf’liz)
nunca acertas numa admiração feliz.
Lês os jornais e admiras tudo do princípio ao fim
e se por desgraça vem um dia sem jornais,
tens de ficar em casa nos chinelos
porque nesse dia, felizmente,
não tens opinião pra levares à rua.
Mas nos outros dias lá estás a discutir.
É que a Natureza é compensadora:
quem não tem dinheiro p’ra ir ao Coliseu
deve ter cá fora razões p’ra se rir.
Só te oiço dizer dos outros
a inveja de seres como eles.
Nem ao menos, pobre fadista,
a veleidade de seres mais bruto?
Até os teus desejos são avaros
como as tuas unhas sujas e ratadas.
Ó meu gordo pelintrão,
água-morna suja, broa do outro v’rao!
Os homens são na proporção dos seus desejos
e é por isso que eu tenho a Concepção do Infinito...
Não te cora ser grande o teu avô
e tu apenas o seu neto, e tu apenas o seu esperma?
Não te dói Adão mais que tu?
Não te envergonha o teres antes de ti
outros muito maiores que tu?
Jamais eu quereria vir a ser um dia
o que o maior de todos já o tivesse sido
eu quero sempre muito mais
e mais ainda muito pr’além-demais-Infinito...
Tu não sabes, meu bruto, que nós vivemos tão pouco
que ficamos sempre a meio-caminho do Desejo?
Em toda a parte o bicho se propaga,
em toda a parte o nada tem estalagem.
O meu suplício não é somente de seres meu patrício
ou o de ver-te meu semelhante,
tu, mesmo estrangeiro, és besta bastante.
Foi assim que te encontrei na Rússia
como vegetas aqui e por toda a parte,
e em todos os ofícios e em todas as idades.
Lá suportei-te muito! Lá falavas russo
e eu só sabia o francês.
Mas na França, em Paris - a grande capital,
apesar de fortificada,
foi assolada por esta espécie animal.
E andam p’los cafés como as pessoas
e vestem-se na moda como elas,
e de tal maneira domésticos
que até vão às mulheres
e até vão aos domésticos.
Felizmente que na minha pátria,
a minha verdadeira mãe, a minha santa Irlanda,
apenas vivi uns anos d’Infância,
apenas me acodem longinquamente
as festas ensuoradas do priest da minha aldeia,
apenas ressuscitam sumidamente
as asfixias da tísica-mater,
apenas soam como revoltas
as pistolas do suicídio de meu pai,
apenas sinto infantilmente
no leito de uma morta
o gelo de umas unhas verdes,
um frio que não é do Norte,
um beijo grande como a vida de um tísico a morrer.
Ó Deus! Tu que m’os levaste é que sabias
o ódio que eu lhes teria
se não tivessem ficado por ali!
Mas antes, mil vezes antes, aturar os burgueses da My
Ireland
que estes desta Terra
que parece a pátria deles!
Ó Horror! Os burgueses de Portugal
têm de pior que os outros
o serem portugueses!
A Terra vive desde que um dia
deixou de ser bola do ar
p’ra ser solar de burgueses.
Houve homens de talento, génios e imperadores.
Precisaram-se de ditadores,
que foram sempre os maiores.
Cansou-se o mundo a estudar
e os sábios morreram velhos
fartos de procurar remédios,
e nunca acharam o remédio de parar.
E inda eu hoje vivo no século XX
a ver desfilar burgueses
trezentas e sessenta e cinco vezes ao ano,
e a saber que um dia
são vinte e quatro horas de chatice
e cada hora sessenta minutos de tédio
e cada minuto sessenta segundos de spleen!
Ora bolas para os sábios e pensadores!
Ora bolas para todas as épocas e todas as idades!
Bolas pròs homens de todos os tempos,
e prà intrujice da Civilização e da Cultura!
Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a f’licidade de um jantar cedinho
co’as bestas da família.
Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais!
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada
p’ra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar à tona d’água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!
Olha para ti!
Se te não vês, concentra-te, procura-te!
Encontrarás primeiro o alfinete
que espetaste na dobra do casaco,
e depois não percas o sítio,
porque estás decerto ao pé do alfinete.
Espeta-te nele para não te perderes de novo,
e agora observa-te!
Não te escarneças! Acomoda-te em sentido!
Não te odeies ainda qu’inda agora começaste!
Enioa-te no teu nojo, mastodonte!
Indigesta-te na palha dessa tua civilização!
Desbesunta te dessa vermência!
Destapa a tua decência, o teu imoral pudor!
Albarda te em senso! Estriba-te em Ser!
Limpa-te do cancro amarelo e podre!
Do lazareto de seres burro!
Desatrela-te do cérebro-carroça!
Desata o nó-cego da vista!
Desilustra-te, descultiva-te, despole-te,
que mais vale ser animal que besta!
Deixa antes crescer os cornos que outros adornos da
Civilização!
Queria-te antes antropófago porque comias os teus
– talvez o mundo fosse Mundo
e não a retrete que é!
Ahi! excremento do Mal, avergonha-te
no infinitamente pequeno de ti com o teu papagaio:
Ele fala como tu e diz coisas que tu dizes
e se não sabe mais é por tua culpa, meu mandrião!
E tu, se não fossem os teus pais,
davas guinchos, meu saguim!
- Tu és o papagaio de teus pais!
Mas há mais, muito mais
que a tua ignorância-miopia te cega.
Empresto-te a minha Inteligência.
Vê agora e não desmaies ainda!
Então eu não tinha razão?
P’ra que me chamavas doido
quando eu m’enjoava de ti?
Ah! Já tens medo?!
Porque te rias da vida
e ias ensuorar as vrilhas nos fauteuils das revistas
co’as pernas fogo de vistas
das coristas de petróleo?
Porque davas palmas aos compéres e actorecos
pelintras e fantoches
antes do palco, no palco e depois do palco?
Ora dize-Me com franqueza:
Era por eles terem piada?
Então era por a não terem
Ah! Era p’ra tu teres piada, meu bruto?!
Porque mandaste de castigo os teus filhos p’r’ás Belas-Artes
quando ficaram mal na instrução primária?
Porque é que dizes a toda a gente que o teu filho idiota
estuda p’ra poeta?
Porque te casaste com a tua mulher
se dormes mais vezes co’a tua criada?
Porque bateste no teu filho quando a mestra
te contou as indecências na aula?
Não te lembras das que tu fizeste
com a própria mestra de moral?
Ou queres tu ser decente,
tu, que tens dezanove filhos?!
Porque choraste tanto quando te desonraram a filha?
Porque lhe quiseste matar o amante?
Não achas isto natural? Não achas isto interessante?
Porque não choraste também pelo amante?...
Deixa! Deixa! Eu não te quero morto com medo de ti-próprio!
Eu quero-te vivo, muito vivo, a sofrer!
Não te despetes do alfinete!
Eu abro a janela pra não cheirar mal!
Galopa a tua bestialidade
na memória que eu faço dos teus coices,
cavalga o teu insecticismo na tua sela de D. Duarte!
Arreia-te de Bom-Senso um segundo! peço-te de joelhos.
Encabresta-te de Humanidade
e eu passo-te uma zoologia para as mãos
p’ra te inscreveres na divisão dos Mamíferos.
Mas anda primeiro ao Jardim Zoológico!
Vem ver os chimpanzés! Acorpanzila-te neles se te ousas!
Sagra-te de cu-azul a ver se eles te querem!
Lá porque aprendeste a andar de mãos no ar
não quer dizer que sejas mais chimpanzé que eles!
Larga a cidade masturbadora, febril,
rabo decepado de lagartixa,
labirinto cego de toupeiras,
raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados,
anémicos, cancerosos e arseniados!
Larga a cidade!
Larga a infâmia das ruas e dos boulevards
esse vaivém cínico de bandidos mudos
esse mexer esponjoso de carne viva
Esse ser-lesma nojento e macabro
Esse S ziguezague de chicote auto-fustigante
Esse ar expirado e espiritista...
Esse Inferno de Dante por cantar
Esse ruído de sol prostituído, impotente e velho
Esse silêncio pneumónico
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira!
Larga a cidade e foge!
Larga a cidade!
Vence as lutas da família na vitória de a deixar.
Larga a casa, foge dela, larga tudo!
Nem te prendas com lágrimas, que lágrimas são cadeias!
Larga a casa e verás - vai-se-te o Pesadelo!
A família é lastro, deita-a fora e vais ao céu!
Mas larga tudo primeiro, ouviste?
Larga tudo!
– Os outros, os sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti também, a ti principalmente!
Larga tudo e vai para o campo
e larga o campo também, larga tudo!
– Põe-te a nascer outra vez!
Não queiras ter pai nem mãe,
não queiras ter outros nem Inteligência!
A Inteligência é o meu cancro
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A Inteligência é a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E já há Inteligência a mais pode parar por aqui!
Depois põe-te a viver sem cabeça,
vê só o que os olhos virem,
cheira os cheiros da Terra
come o que a Terra der,
bebe dos rios e dos mares,
- põe-te na Natureza!
Ouve a Terra, escuta-A.
A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!
Depois, põe-te a coca dos que nascem
e não os deixes nascer.
Vai depois pla noite nas sombras
e rouba a toda a gente a Inteligência
e raspa-lhos a cabeça por dentro

co’as tuas unhas e cacos de garrafa,
bem raspado, sem deixar nada,
e vai depois depressa muito depressa
sem que o sol te veja
deitar tudo no mar onde haja tubarões!
Larga tudo e a ti também!
Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,
Crápula do Egoísmo, cartola d’espanta-pardais!
Mas hás-de pagar-Me a febre-rodopio
novelo emaranhado da minha dor!
Mas hás-de pagar-Me a febre-calafrio
abismo-descida de Eu não querer descer!
Hás-de pagar-Me o Absinto e a Morfina
Hei-de ser cigana da tua sina
Hei-de ser a bruxa do teu remorso
Hei-de desforra-dor cantar-te a buena-dicha
em águas fortes de Goya
e no cavalo de Tróia
e nos poemas de Poe!
Hei-de feiticeira a galope na vassoura
largar-te os meus lagartos e a Peçonha!
Hei-de Vara Magica encantar-te Arte de Ganir
Hei-de reconstruir em ti a escravatura negra!
Hei-de despir-te a pele a pouco e pouco
e depois na carne-viva deitar fel,
e depois na carne-viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros.
Hei-de gozar em ti as poses diabólicas
dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!
Hei-de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas canelas mirradas
o negro pendão dos piratas!
Hei-de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!
Hei-de bóia do Destino ser em brasa
e tua náufrago das galés sem horizontes verdes!
E mais do que isto ainda, muito mais:
Hei-de ser a mulher que tu gostes,
hei-de ser Ela sem te dar atenção!
Ah! que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciúmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos Bórgias a penar!...
de José Almada Negreiros
poeta sensacionista
e Narciso do Egipto 


A Álvaro de Campos a dedicação intensa de todos os meus avatares.
Foi escrito durante os três dias e as três noites que
durou a revolução de 14 de Maio de 1915


Almada Negreiros

Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#14/2016)

The Woken Trees - NNON - 2013





O álbum de estreia de The Woken Trees, "NNON", começa com vertentes mais negras, perturbadoramente belas, soa um pouco a Sonic Youth ou Joy Division. Com ritmos distorcidos, guitarras influentes e uma voz intensa, este "NNON" entranha-se para não mais sair, vais querer mais e mais. A confirmar o mencionado fiquem com uma das mais fortes do álbum, "Orders".


sábado, 2 de abril de 2016

Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires 7/10 (Obra de Paulo Seara)

Lê, ou relê, as partes anteriores; 12345; 6;


Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires



7


Após alguns meses de indefinição, a namorada do Aires deu o primeiro passo em direcção ao Beijo Negro. Estivera a ler um artigo na Cosmopolitan que a esclareceu bastante. Foi um dia muito positivo para o Aires, naquela tarde tinha mudado uma tomada eléctrica da casa de banho. A namorada adorou aquela demonstração de competência que só aparece nos homens com muitos pêlos no peito. Muito contente, o Aires brincou com a situação e falou pela primeira vez, em 3 anos, da teoria das propriedades sépticas do mijo.

A tarde de Domingo perfumava o Aires até que a namorada o descobriu a misturar as bebidas com a pila. Revoltada com tamanha podridão deixou a casa do Aires e nunca mais lhe falou. Naquele momento o Aires sentiu-se nu, observado por todos. Toda a excitação que sentia transformou-se em gelo com vinte e cinco mil anos.

Livros que nos devoram por Luísa Félix (#03/2016)

“Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes”, de Mathias Énard


«- Vou dizer-te como se aprende. Não há outra maneira. Apoia o braço esquerdo na mesa à tua frente, com a mão meio aberta, com o polegar mole, e com a mão direita desenha aquilo que vês, uma vez, duas vezes, mil vezes. Não precisas de modelo nem de professor. Numa mão está tudo. Ossos, movimentos, matérias, proporções, e até pregueados. Confia no que vês. Repete até saberes. Depois faz a mesma coisa com o pé, poisando-o num banquinho; a seguir com a cara, servindo-te de um espelho. Só seguidamente poderás passar para um modelo, para as posições.»


Aos 31 anos, depois de ter criado a sua obra “David”, Miguel Ângelo Buonarroti é considerado, por muitos, o melhor artista do seu tempo.

Por falta do prometido pagamento e por ter sido escorraçado pelo papa, como um indigente, o escultor deixa a meio o monumental túmulo papal que Júlio II lhe encomendara para a Basílica de São Pedro, ainda em construção. Como desforra, decide aceitar o pedido do sultão Bayazid, que lhe promete avultado pagamento em troca de um projecto para uma ponte que ligue as duas margens do chamado Corno de Ouro. O artista florentino desembarca, assim, no porto de Constantinopla no dia 13 de Maio de 1506. Esperam-no o dragomano ou intérprete grego, ao qual o narrador, em diálogo aberto com o leitor, decide, de improviso, apelidar de Manuel e o rico comerciante florentino Maringhi, há muito instalado na cidade. Manuel, mais do que um intérprete e um cicerone, revelar-se-á um amigo.


Enquanto está na cidade, Miguel Ângelo passa grande parte do seu tempo no quarto que alugou em casa de Maringhi, a desenhar, a ouvir Manuel a ler poesia persa e a fazer listas aleatórias de palavras, que regista num caderno. Nasce, entretanto, entre ele e Mesihi, um poeta boémio, protegido do vizir Ali Paxá, uma amizade. É o poeta, que acaba por desenvolver pelo florentino um sentimento que excede a amizade, que lhe dá a conhecer as ruas e os edifícios de Constantinopla, assim como a vida nocturna. Miguel Ângelo fica fascinado por tudo o que vê, mas a sua atenção centra-se, em particular, na monumentalidade arquitectónica e ornamental da basílica de Santa Sofia e numa figura ambígua que supõe ser uma bailarina andaluza. É, aliás, esta figura que toma, em alguns capítulos, o lugar do narrador e que parece sussurrar, ao ouvido de um Miguel Ângelo adormecido, palavras de quem sofre um amor não correspondido.

“Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes”, ainda que seja uma obra pouco extensa, de capítulos curtos, revela-se uma viagem bela e intensa, que nos proporciona o contacto com uma cultura fascinante e com a obra de um dos maiores vultos da arte do Renascimento. Além disso, há, na obra, inúmeras referências a técnicas e materiais de pintura. Para ler de um fôlego.


A autora, Luísa Félix, pode ser seguida no seu blogue, Letras são papéis.

Animagem (#07/2016)

Piratas e uma história de amor, "Goutte d'Or".


terça-feira, 29 de março de 2016

Poesia de primeira, à Segunda-Feira (#13/2016)

(É uma Segunda metafórica...)


Escrever 


Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, como isto, continuando...

E gostava, para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor... medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo? 


Irene Lisboa

segunda-feira, 28 de março de 2016

Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#13/2016)

Syd Arthur - On An On - 2012





Syd Arthur é uma banda que conjuga guitarras progressivas com Folk e letras fortes que captam a atenção dos ouvintes. "On An On", de 2012, mostra um controlo rítmico nos "riffs" que poucos conseguem. Os elementos progressivos encaixam na perfeição fazendo então um combo de energia extraordinário, conseguindo que as músicas se tornem numa espécie de vício inquebrável. A confirmar está a "Ode To The Summer".


domingo, 27 de março de 2016

Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires 6/10 (Obra de Paulo Seara)

Lê, ou relê, as partes anteriores; 1234; 5;


Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires



6


Um cliente do Aires, teve um dia mau em casa e não estava com coragem para enfrentar a mulher. Tudo por causa de uma tomada eléctrica que provocou um curto circuito durante a madrugada. A vizinhança alertada, chamou os bombeiros que surpreenderam a mulher dormindo nua em casa. Nessa noite ele tinha estado de serviço pois era segurança num banco. Estupefacto, o Aires alertou-o para ter cuidado com as tomadas eléctricas e para que nunca lhes mijasse em cima. E abordando-o mais tarde, disse-lhe, confessionalmente, que o mijo era bom para limpar as feridas pois tinha o mesmo efeito que a água oxigenada. Depois de uma longa conversa o Aires decidiu oferecer uma dupla dose de Martini misturada com o pénis. Teve pena do gajo.
Naquela conversa ninguém falou de Beijos Negros.

SCREEN SHOT por A.A.M. (#13/2016)

(Screen Shot é escrito segundo a nova variação ortográfica.)


Clássico: The Greatest Story Ever Told [A Maior História de Todos os Tempos] (1965)
Realização: George StevensDavid Lean e Jean Negulesco (não creditados)


Páscoa não seria Páscoa sem as tardes de filmes de temática apropriada à época sobre a vida de Jesus Cristo. O clássico deste fim de semana santo, A Maior História de Todos os Tempos, tem também presença regular nas nossas televisões. De duração quase sempre muito extensa, este como outros, relata toda a história desde o nascimento, a vida, morte e ressurreição de Jesus. Várias nomeações tornam este filme um êxito de 1965 onde protagonizavam Max von Sydow, Martin Landau, Charlton Heston, Claude Rains. Para além de folares, filhós e doçaria de vários géneros, em tardes de repasto longos minutos relembravam a mais bela história que desde bem pequenos era atualizada nesta altura. Um clássico para a eternidade.




Nota do Editor:

Nesta edição de 2016, o treze revelou-se um número fatídico para a rubrica SCREEN SHOT, infelizmente, compromissos profissionais tornaram inviável a continuação da colaboração do André com a Pomar e, consequentemente, o término desta rubrica. Resta-nos agradecer ao André a sua colaboração connosco e desejar-lhe felicidades e um futuro promissor, enquanto esperamos que ele possa voltar a colaborar connosco. Entretanto, ainda sem uma proposta alternativa, a sessão de cinema vai para intervalo na Pomar de Letras e retomará assim que possível.
Aproveito ainda para pedir desculpa pelos atrasos nas publicações, mas motivos profissionais, também, complicam as rotinas do blogue.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Poesia de primeira, à Sexta-Feira (#12/2016)

Para celebrar o dia mundial da poesia (21 de Março), durante esta semana, todos os dias haverá Poesia de primeira; dois poemas, um da autoria dos nossos colaboradores, o outro um poema de um autor escolhido por outro colaborador. Uma boa semana, boa Primavera, e boas leituras.




Uniões I



Ideias, conceitos, vogo até ao termo despropositado de vulgares ideais idealizados, deambulatórios no pináculo sobriamente divagado nas curvas que te comandam… vozes aleatórias que perseguem o corpo, tributos turvos de atribulados espaços errantes, captas a instância, prevaleces na figura, observas atentamente aquele ponto que te persegue, deslumbras-te no vazio e consomes-te no tecido… Espraias-te no zimbório tocando com teus dedos, humedecidos no sexo, as extremidades das constelações esquecidas e deixas-te guiar para o papel. Pelo papel renasces bela, adormecida, dormindo num pesadelo de cetim, onde tu, Cronos, regurgitando teus filhos, te perdes na embriaguez das vagas encrespando seu abraço em teu redor. Num suave toque de seda, deixas-te deslumbrar pela ausência idealizada em mecanismos anatematizados pelo torpor do ódio enquanto olhas, captando o vazio. Deixas que o algodão te toque, doce como o mar.


Nuno Baptista e Rogério Paulo E. Martins


Espaços em Branco


Ao fim da noite, no frio do táxi, pousas 
a cabeça no meu ombro - e assim entramos 
duma vez e inteiramente na nossa vida. 
Lá fora, pelo contrário, tudo perde realidade; 

há em toda a parte um sossego abstracto, 
as ruas parecem pintadas - betão entre 
as árvores - numa tela baça. Vamos por lugares 
que não reconheço, a minha geografia é vaga 

e omissa como a dos velhos cartógrafos 
que desenhavam um mundo cheio de espaços 
em branco. É onde estamos agora, num 
intervalo do mapa rente à primeira manhã - 

que será a nossa e também a última.


Rui Pires Cabral

quinta-feira, 24 de março de 2016

Poesia de primeira, à Quinta-Feira (#12/2016)

Para celebrar o dia mundial da poesia (21 de Março), durante esta semana, todos os dias haverá Poesia de primeira; dois poemas, um da autoria dos nossos colaboradores, o outro um poema de um autor escolhido por outro colaborador. Uma boa semana, boa Primavera, e boas leituras.


Há um esquisso de intimidade


Há um esquisso de intimidade
nesse aroma de café
que inaugura a manhã e que,
a conta-gotas,
se imiscui no cheiro
permanente dos livros.

Há um secreto aconchego
nessa luz de sol morno
que entra pela janela,
nesse silêncio cortado, a espaços,
pelas vozes abafadas dos vizinhos.

Sobram ecos da infância
no tilintar da loiça
dos almoços dos outros,
no aroma familiar
do assado de domingo,
nas conversas cruzadas
que adivinho…

E tudo, de uma vez só,
me assalta:
o torpor das tardes de estio,
o cheiro dos limos
e das malápias,
as brincadeiras depois da escola,
os rostos amigos…

E tudo, como cenas
de um filme mudo,
agarro, como, num ápice,
tudo perco…


Luísa Félix


Uma chama não chama a mesma chama


uma chama não chama a mesma chama
há uma outra chama que se chama
em cada chama que chama pela chama
que a chama no chamar se incendeia

um nome não nome o mesmo nome
um outro nome nome que nomeia
em cada nome o meio pelo nome
que o nome no nome se incendeia

uma chama um nome a mesma chama
há um outro nome que se chama
em cada nome o chama pelo nome
que a chama no nome se incendeia

um nome uma chama o mesmo nome
há uma outra chama que nomeia
em cada chama o nome que se chama
o nome que na chama se incendeia


E.M. de Mello e Castro

quarta-feira, 23 de março de 2016

Poesia de primeira, à Quarta-Feira (#12/2016)

Para celebrar o dia mundial da poesia (21 de Março), durante esta semana, todos os dias haverá Poesia de primeira; dois poemas, um da autoria dos nossos colaboradores, o outro um poema de um autor escolhido por outro colaborador. Uma boa semana, boa Primavera, e boas leituras.




Água curva


Uma vez ouvi: “O equilíbrio é bom, é cair sempre para o mesmo lado.”
…recebi de forma irónica e engraçada essa informação…
…Engraçado pensar nisso quando a cor dos teus olhos muda
consoante o teu estado de espírito, 
adorei reparar nesse pormenor enquanto choravas…
…Abraçar-te é chorar sozinho…
…Fala comigo como o amor…


Albano Leal Ribeiro


O pai


Um pai morto teria sido talvez
Um melhor pai. O preferível
É um pai nado-morto.
Não pára de crescer a erva sobre a fronteira.
A erva deve ser arrancada
De novo e de novo que cresce sobre a fronteira.

Gostaria que o meu pai tivesse sido um tubarão
Que tivesse despedaçado quarenta baleeiros
(E no seu sangue eu teria aprendido a nadar)
Minha mãe uma baleia azul meu nome Lautréamont
Morto em Paris
1871 desconhecido.


Heiner Müller (Tradução de Adolfo Luxúria Canibal)


terça-feira, 22 de março de 2016

Poesia de primeira, à Terça-Feira (#12/2016)

Para celebrar o dia mundial da poesia (21 de Março), durante esta semana, todos os dias haverá Poesia de primeira; dois poemas, um da autoria dos nossos colaboradores, o outro um poema de um autor escolhido por outro colaborador. Uma boa semana, boa Primavera, e boas leituras.


O dia quente amolece
Entre os ramos da ameixeira
E o sol das folhas tece
Uma repousante esteira.
Em que me deito por dentro
E me levanto por fora,
Do seu tronco, o meu centro,
Em ramagem indo embora.
Plácidas flores lhe colhi,
Frutados sabores provei,
Sob a sombra que escolhi
Quando por ali passei.


Hugo Carabineiro




insones


Fumam à janela, o vento frio
desfaz o fumo, os dedos tremem.
Não sabem uns dos outros,
espalhados pela cidade, mas
procuram as luzes ainda acesas
noutras casas. Noite dentro,
o silêncio dos que dormem
é uma afronta, desleixo pueril
de quem consegue ignorar
as facadas do tempo, a areia
entre os dedos, o sobressalto.


José Mário Silva

Ditados Impopulares (#06/2016)



"Um provérbio que não se evade à vontade de comer."


Segue os Ditados Impopulares no facebook. ;)

segunda-feira, 21 de março de 2016

SCREEN SHOT por A.A.M. (Especial Primavera 2016)

(Screen Shot é escrito segundo a nova variação ortográfica.)


Para comemorar o Equinócito da Primavera deixamos uma sugestão multifacetada conjuntamente celebrando o dia mundial da poesia com as propostas que se seguem: 


Um poema presente num filme 

Before Sunrise (1995) – Richard Lnklater
“As I Walked Out One Evening” - W. H Auden 




As I Walked Out One Evening 


As I walked out one evening, 
Walking down Bristol Street, 
The crowds upon the pavement 
Were fields of harvest wheat. 

And down by the brimming river 
I heard a lover sing 
Under an arch of the railway: 
'Love has no ending. 

'I'll love you, dear, I'll love you 
Till China and Africa meet, 
And the river jumps over the mountain 
And the salmon sing in the street, 

'I'll love you till the ocean 
Is folded and hung up to dry 
And the seven stars go squawking 
Like geese about the sky. 

'The years shall run like rabbits, 
For in my arms I hold 
The Flower of the Ages, 
And the first love of the world.' 

But all the clocks in the city 
Began to whirr and chime: 
'O let not Time deceive you, 
You cannot conquer Time. 

'In the burrows of the Nightmare 
Where Justice naked is, 
Time watches from the shadow 
And coughs when you would kiss. 

'In headaches and in worry 
Vaguely life leaks away, 
And Time will have his fancy 
To-morrow or to-day. 

'Into many a green valley 
Drifts the appalling snow; 
Time breaks the threaded dances 
And the diver's brilliant bow. 

'O plunge your hands in water, 
Plunge them in up to the wrist; 
Stare, stare in the basin 
And wonder what you've missed. 

'The glacier knocks in the cupboard, 
The desert sighs in the bed, 
And the crack in the tea-cup opens 
A lane to the land of the dead. 

'Where the beggars raffle the banknotes 
And the Giant is enchanting to Jack, 
And the Lily-white Boy is a Roarer, 
And Jill goes down on her back. 

'O look, look in the mirror? 
O look in your distress: 
Life remains a blessing 
Although you cannot bless. 

'O stand, stand at the window 
As the tears scald and start; 
You shall love your crooked neighbour 
With your crooked heart.' 

It was late, late in the evening, 
The lovers they were gone; 
The clocks had ceased their chiming, 
And the deep river ran on.


W. H Auden


Um filme em formato poema:


“Vincent” curta metragem por Tim Burton narrado por Vincent Price




Um poema:


Os meus versos 


Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...

Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...


Florbela Espanca


Um filme:


Citizen Kane – Orson Welles 1941


Poesia de primeira, à Segunda-Feira (#12/2016)

Para celebrar a entrada da Primavera e o dia mundial da poesia, durante esta semana, todos os dias haverá Poesia de primeira; dois poemas, um da autoria dos nossos colaboradores, o outro um poema de um autor escolhido por outro colaborador. Uma boa semana, boa Primavera, e boas leituras.


Juventude no Sainsburys


Em Edimburgo


Juventude que saíste à rua com todas as profissões
São oito horas, nada tens e ficas incendiada a pensar no jantar.
A pasta fresca e os molhos abraçam o leite de uma libra
No saco laranja de um pôr-do-sol na fina película do dia

Como era ontem, agora e sempre na suturação da candura laboral
Esta juventude de cientistas vai para os quartos níveos
Aumentam os níveis de ansiedade sob o olhar atento da Igreja de Tron
E as inquietações carambolam policiadas pelos amigos distantes.

Juventude de todas as conclusões das mais curtas às longas
Não conheceste o tear, e a roda, e as palavras dos subordinados dos teus pais
Juventude de países de primeiro mundo alimentando o carbono dos mercados
Os teus exércitos populares insurgem-se para ir cantar aos jurados.

Dedica-se à palavra, não; então à rima, não;
Recria-se na mesma cultura, das mesmas andaduras
Os ciclos de verduras encarreiradas. E os cabelos ondulados
E os familiares de veludos e de trajes de luzes
Azuis de orgulho, dourados de cinismo, fazem a plateia.

Ilumina-se com este chicote, esta era de novos pobres
Sem pulso para rasgar o nevoeiro, esperando o messias num pacote de bolachas.
Contemplam a terra plantada de escravos
Com corpos de vidro.

Levaste ovos para casa, mas ficaram podres.
Não te preocupes as galinhas tratam de ti.
Eu trato de ti, sou uma fralda, amparo os teus humores,
Sou a alface no teu traje de luces.
A parra do te deum olha por vós
E vós por vós olhais.

(06.07.2014)


Paulo Seara


Um homem tem de viver.


Um homem tem de viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem de viver
com um pé na Primavera.

Tem de viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem de ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precaridade de todos os nomes)
o começo apenas.


Fernando Assis Pacheco