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terça-feira, 3 de maio de 2016
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Livros que nos devoram, por Luísa Félix (#04/2016)
"Loucura", de Mário de Sá-Carneiro

«Mas afinal o que vem a ser a loucura? Um enigma... Por isso mesmo é que às pessoas enigmáticas, incompreensíveis, se dá o nome de loucos...
Que a loucura, no fundo, é como tantas outras, uma questão de maioria. A vida é uma convenção: isto é vermelho, aquilo é branco, unicamente porque se determinou chamar à cor disto vermelho e à cor daquilo branco. A maior parte dos homens adoptou um sistema determinado de convenções: é a gente de juízo... Pelo contrário, um número reduzido de indivíduos vê os objectos com outros olhos, chama-lhes outros nomes, pensa de maneira diferente, encara a vida de modo diverso. Como estão em minoria, são doidos...»
«Enganaram-se vocês e os médicos com isso a que chamaram loucura. O vosso espírito é demasiadamente acanhado para compreender tudo quanto não seja o comum... o vulgar (...).»
Mário de Sá-Carneiro, Loucura
A grandeza das obras não se mede, como a das pessoas, pelo tamanho. Podemos afirmá-lo acerca de “Loucura”, de Mário de Sá-Carneiro, poeta do “Orpheu”, como Pessoa e Almada Negreiros. A obra, que, na edição que tenho em meu poder, não tem mais de sessenta páginas, foi escrita em 1910, um ano significativo para Portugal, quer política quer socialmente. Talvez por isso traduza pessimismo e desalento face à existência.
A narração faz-se em primeira pessoa por aquele que é o amigo mais íntimo de Raúl Vilar, o protagonista. Raúl é um jovem rico, desocupado, a quem tudo aborrece. O seu temperamento inconstante leva-no a oscilar entre o desalento e as paixões extremas. Não acredita no amor e vê a literatura, em particular a poesia, como manifestação de sentimentalismo lamechas. Contudo, a sua visão do amor muda quando, numa festa, conhece Marcela, por quem desenvolve, inicialmente, um amor platónico, que redunda em amor físico, sobretudo depois do casamento. Esse amor por Marcela, que julga perfeita, leva-o a dedicar-se com afinco à escultura, produzindo algumas obras que fazem dele um artista da moda. Contudo o amor que dedica à esposa não o impede de a trair com uma das suas modelos.
Raúl vive obcecado com a passagem do tempo e com o envelhecimento, com a forma como este contribui para a degradação dos corpos. É esta obsessão que o leva a planear algo que constituirá, na sua óptica, uma forma de preservar a beleza de Marcela, a quem pretende dedicar amor eterno, e uma prova desse amor.
Auxiliado pelas suas memórias e pela leitura de um diário que o amigo deixou, o narrador passa em revista a vida de Raúl desde a infância, numa tentativa de justificar o seu acto, que outros julgaram um sinal de insanidade. Este périplo pela vida do protagonista serve ao narrador para refectir sobre temas como a loucura, o tema central da obra, o amor ou a arte.
Mário de Sá-Carneiro morreu há 100 anos, no dia 26 de Abril de 1916, com apenas 26 anos. Apesar da sua tenra idade e da sua vida curta, o autor deixou uma obra, que sendo breve, revela grande valor estético.
A autora, Luísa Félix, pode ser seguida no seu blogue, Letras são papéis.
sábado, 30 de abril de 2016
Animagem (#09/2016)
"Monster Box" (Casota de Monstros*) é uma animação cativante, com uma belíssima história de amizade e imaginação como mote para um bom bocado.
(*Tradução livre)
sexta-feira, 29 de abril de 2016
Poesia de primeira, à Sexta-Feira (#17/2016)
Mulheres correndo, correndo pela noite
Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
Herberto Helder
terça-feira, 26 de abril de 2016
Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#17/2016)
Banco de Gaia - Apollo - 2013
Não, não falo de um Banco em Vila Nova de Gaia, mas sim da banda de Electrónica inglesa, Banco de Gaia. Banco de Gaia lançou, em 2013, o seu último e distinto álbum, "Apollo". Este álbum tem um pouco de tudo, desde parecenças a Dead Can Dance, passando talvez por This Mortal Coil. Boas referências que nos envolvem em cada música. Para comprovar a qualidade desta banda britânica temos "Lamentations".
sábado, 23 de abril de 2016
Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires 10/10 (Obra de Paulo Seara)
Lê, ou relê, o início da obra; 1; 2; 3; 4; 5; 6; 7; 8; 9;
Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires
10
Aires foi ao psiquiatra, anda com nervos, e irrita-se com frequência, e além disso sente estados de apatia. O doutor pensa que se trata de distúrbios bipolares, mas Aires conhece-se bem demais e sabe que na realidade anda com desejos de realizar Beijos Negros a algumas clientes e, como se já não bastasse isso, tem fantasias com homens.
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Poesia de primeira, à Quinta-Feira (#16/2016)
As páginas dos romances
Arriscávamos o salto mortal
voando com uma venda nos olhos
dos andaimes para o monte de areia da póvoa.
As obras da escola eram a nossa perdição:
as fasquias de alumínio, o ondulado de luzalite
das coberturas, o entulho, o ressalto
exacto do encaixe das tijoleiras, o pó quase de talco
dos sacos de cimento da cimpor. Nos sábados
à tarde erguíamos muros no combarro com tijolo
de quinze, marcávamos com estacas de pinho
o perímetro exterior do pavilhão, ligávamos a betoneira
a olhar em sobressalto os movimentos oscilatórios
do balde. Penso que era assim. Às vezes
pergunto o que fica dos livros, o que pertence
e não pertence à literatura, o que acrescentaram
à nossa vida as páginas dos romances.
Arriscávamos o salto mortal
voando com uma venda nos olhos
dos andaimes para o monte de areia da póvoa.
As obras da escola eram a nossa perdição:
as fasquias de alumínio, o ondulado de luzalite
das coberturas, o entulho, o ressalto
exacto do encaixe das tijoleiras, o pó quase de talco
dos sacos de cimento da cimpor. Nos sábados
à tarde erguíamos muros no combarro com tijolo
de quinze, marcávamos com estacas de pinho
o perímetro exterior do pavilhão, ligávamos a betoneira
a olhar em sobressalto os movimentos oscilatórios
do balde. Penso que era assim. Às vezes
pergunto o que fica dos livros, o que pertence
e não pertence à literatura, o que acrescentaram
à nossa vida as páginas dos romances.
José Carlos Barros
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