Pomar de Letras é uma colaboração de diversos amigos, em formato "zine". Tem por objectivo encontrar um espaço no nosso meio cultural e divulgar a obra e propostas dos seus colaboradores nas mais variadas expressões. Conta por isso com o apoio e a colaboração de todos. Partilha connosco a tua arte, contacta-nos através da conta de correio electrónico pomardeletras@gmail.com, para que juntos, possamos florescer e ser frutos desta pequena (r)evolução.
terça-feira, 14 de junho de 2016
terça-feira, 31 de maio de 2016
Ditados Impopulares (#11/2016)
"Um provérbio para as redes sociais. Haveria certamente outras soluções impopulares para: "mais vale um gosto que vinte vinténs", mas esta é para inglês ver."
Segue os Ditados Impopulares no facebook. ;)
terça-feira, 17 de maio de 2016
Ditados Impopulares (#10/2016)
"Um provérbio sobre a semeação de nuvens e a criação artificial de catástrofes a que chamamos naturais."
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sexta-feira, 6 de maio de 2016
Poesia de primeira, à Sexta-Feira (#18/2016)
Geologia
Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.
Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.
Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.
Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.
Vítor Nogueira
quarta-feira, 4 de maio de 2016
159cm, por Rogério Paulo E. Martins (#01/2016)
159cm é uma rubrica nova na Pomar de Letras, onde esporadicamente o autor nos dará a sua opinião e visão do mundo. Desde temas sérios a divagações surreais e disparatadas, tudo cabe em 159cm.
"Like my selfie"
"Like my selfie"
Esbarrei,
outro dia, numa publicação no facebook em que a fotografia de um miúdo com o
seu cachorrinho era acompanhada duma descrição na qual aquele se desculpava do
seu comportamento e fazia juras de grande amor pelo canídeo. Não sabendo do que
se tratava e com a curiosidade atiçada,
por os mais de mil comentários, abri a publicação e dei uma vista de olhos pela
miríade de reacções para perceber o que se houvera passado. Rapidamente, por
entre os insultos ao miúdo percebi que, em nome dos quinze segundos de
estrelato na Internet, este gravara um vídeo em que maltratava o animal. Não vi
o vídeo, mas pude perceber por entre aquelas reacções e outras publicações com
que me deparei, que o indivíduo chegou a ameaçar largar o cão janela abaixo,
caso chegasse a determinado número de “gosto”.
No dia
anterior, ficara perplexo com a notícia de uma jovem nos E.U.A. acusada de
cumplicidade na violação de uma amiga, porque, ao invés de ajudar a amiga que
estava a ser violentada, a jovem achou aquela uma oportunidade ideal para pegar
no seu “smartphone” e partilhar a violação em directo no Twitter. Segundo a
própria, a intenção era que alguém chamasse a polícia, porque é claro ela
estava muito ocupada a partilhar o momento na sua página pessoal e não poderia,
ser ela a ligar para as autoridades, ou ajudar a amiga (segundo a notícia, a
rapariga ria-se, enquanto filmava e a outra era violada, e a sua única acção
foi puxar uma das pernas da vítima, ao invés de atacar o violador). A integridade
física e mental da amiga era inferior face ao possível número de seguidores e “likes”.
Agora,
deparo-me com o relato de uma estátua, num edifício património nacional, escaquilhada
por causa de uma fotografia. Até poderia ter sido um acidente e muito
provavelmente até daríamos por nós a relatar algumas maluquices da nossa
juventude, sentindo uma certa empatia para com o jovem. O problema é que todos
estes casos têm um ridículo denominador comum, que passa pela “fama” nas redes
sociais. Uma fotografia, já não vale pelo seu interesse artístico, ou pelo
momento captado, um vídeo não regista um momento que queiramos guardar para
recordar futuramente; hoje em dia as cousas valem “likes”, seguidores e
visualizações; valores efémeros que como o insecto do mesmo nome, vivem apenas
para a posteridade. A grande diferença é que as efémeras vivem um dia intenso
em que procuram procriar e perdurar a espécie, vivem intensamente, para poderem
existir, enquanto estes falsos valores sociais nos encaminham para que não
existamos mais, mas pelo menos alguém fez “gosto”.
Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#18/2016)
Butterclock - First Prom EP - 2013
Butterclock, ou seja Laura Clock, é uma artista que intriga o ouvinte em todos os sentidos com o seu "Ambient". Este EP, "First Prom", conta a história de uma jornada pelo mundo, com letras eloquentes, sem falhas, um trabalho pleno de fragilidade e de balanço perfeito entre todos os elementos que compõem a sonoridade de Butterclock. Fiquem com a leveza de sons e voz de "Milky Words".
terça-feira, 3 de maio de 2016
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Livros que nos devoram, por Luísa Félix (#04/2016)
"Loucura", de Mário de Sá-Carneiro

«Mas afinal o que vem a ser a loucura? Um enigma... Por isso mesmo é que às pessoas enigmáticas, incompreensíveis, se dá o nome de loucos...
Que a loucura, no fundo, é como tantas outras, uma questão de maioria. A vida é uma convenção: isto é vermelho, aquilo é branco, unicamente porque se determinou chamar à cor disto vermelho e à cor daquilo branco. A maior parte dos homens adoptou um sistema determinado de convenções: é a gente de juízo... Pelo contrário, um número reduzido de indivíduos vê os objectos com outros olhos, chama-lhes outros nomes, pensa de maneira diferente, encara a vida de modo diverso. Como estão em minoria, são doidos...»
«Enganaram-se vocês e os médicos com isso a que chamaram loucura. O vosso espírito é demasiadamente acanhado para compreender tudo quanto não seja o comum... o vulgar (...).»
Mário de Sá-Carneiro, Loucura
A grandeza das obras não se mede, como a das pessoas, pelo tamanho. Podemos afirmá-lo acerca de “Loucura”, de Mário de Sá-Carneiro, poeta do “Orpheu”, como Pessoa e Almada Negreiros. A obra, que, na edição que tenho em meu poder, não tem mais de sessenta páginas, foi escrita em 1910, um ano significativo para Portugal, quer política quer socialmente. Talvez por isso traduza pessimismo e desalento face à existência.
A narração faz-se em primeira pessoa por aquele que é o amigo mais íntimo de Raúl Vilar, o protagonista. Raúl é um jovem rico, desocupado, a quem tudo aborrece. O seu temperamento inconstante leva-no a oscilar entre o desalento e as paixões extremas. Não acredita no amor e vê a literatura, em particular a poesia, como manifestação de sentimentalismo lamechas. Contudo, a sua visão do amor muda quando, numa festa, conhece Marcela, por quem desenvolve, inicialmente, um amor platónico, que redunda em amor físico, sobretudo depois do casamento. Esse amor por Marcela, que julga perfeita, leva-o a dedicar-se com afinco à escultura, produzindo algumas obras que fazem dele um artista da moda. Contudo o amor que dedica à esposa não o impede de a trair com uma das suas modelos.
Raúl vive obcecado com a passagem do tempo e com o envelhecimento, com a forma como este contribui para a degradação dos corpos. É esta obsessão que o leva a planear algo que constituirá, na sua óptica, uma forma de preservar a beleza de Marcela, a quem pretende dedicar amor eterno, e uma prova desse amor.
Auxiliado pelas suas memórias e pela leitura de um diário que o amigo deixou, o narrador passa em revista a vida de Raúl desde a infância, numa tentativa de justificar o seu acto, que outros julgaram um sinal de insanidade. Este périplo pela vida do protagonista serve ao narrador para refectir sobre temas como a loucura, o tema central da obra, o amor ou a arte.
Mário de Sá-Carneiro morreu há 100 anos, no dia 26 de Abril de 1916, com apenas 26 anos. Apesar da sua tenra idade e da sua vida curta, o autor deixou uma obra, que sendo breve, revela grande valor estético.
A autora, Luísa Félix, pode ser seguida no seu blogue, Letras são papéis.
sábado, 30 de abril de 2016
Animagem (#09/2016)
"Monster Box" (Casota de Monstros*) é uma animação cativante, com uma belíssima história de amizade e imaginação como mote para um bom bocado.
(*Tradução livre)
sexta-feira, 29 de abril de 2016
Poesia de primeira, à Sexta-Feira (#17/2016)
Mulheres correndo, correndo pela noite
Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
Herberto Helder
terça-feira, 26 de abril de 2016
Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#17/2016)
Banco de Gaia - Apollo - 2013
Não, não falo de um Banco em Vila Nova de Gaia, mas sim da banda de Electrónica inglesa, Banco de Gaia. Banco de Gaia lançou, em 2013, o seu último e distinto álbum, "Apollo". Este álbum tem um pouco de tudo, desde parecenças a Dead Can Dance, passando talvez por This Mortal Coil. Boas referências que nos envolvem em cada música. Para comprovar a qualidade desta banda britânica temos "Lamentations".
sábado, 23 de abril de 2016
Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires 10/10 (Obra de Paulo Seara)
Lê, ou relê, o início da obra; 1; 2; 3; 4; 5; 6; 7; 8; 9;
Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires
10
Aires foi ao psiquiatra, anda com nervos, e irrita-se com frequência, e além disso sente estados de apatia. O doutor pensa que se trata de distúrbios bipolares, mas Aires conhece-se bem demais e sabe que na realidade anda com desejos de realizar Beijos Negros a algumas clientes e, como se já não bastasse isso, tem fantasias com homens.
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Poesia de primeira, à Quinta-Feira (#16/2016)
As páginas dos romances
Arriscávamos o salto mortal
voando com uma venda nos olhos
dos andaimes para o monte de areia da póvoa.
As obras da escola eram a nossa perdição:
as fasquias de alumínio, o ondulado de luzalite
das coberturas, o entulho, o ressalto
exacto do encaixe das tijoleiras, o pó quase de talco
dos sacos de cimento da cimpor. Nos sábados
à tarde erguíamos muros no combarro com tijolo
de quinze, marcávamos com estacas de pinho
o perímetro exterior do pavilhão, ligávamos a betoneira
a olhar em sobressalto os movimentos oscilatórios
do balde. Penso que era assim. Às vezes
pergunto o que fica dos livros, o que pertence
e não pertence à literatura, o que acrescentaram
à nossa vida as páginas dos romances.
Arriscávamos o salto mortal
voando com uma venda nos olhos
dos andaimes para o monte de areia da póvoa.
As obras da escola eram a nossa perdição:
as fasquias de alumínio, o ondulado de luzalite
das coberturas, o entulho, o ressalto
exacto do encaixe das tijoleiras, o pó quase de talco
dos sacos de cimento da cimpor. Nos sábados
à tarde erguíamos muros no combarro com tijolo
de quinze, marcávamos com estacas de pinho
o perímetro exterior do pavilhão, ligávamos a betoneira
a olhar em sobressalto os movimentos oscilatórios
do balde. Penso que era assim. Às vezes
pergunto o que fica dos livros, o que pertence
e não pertence à literatura, o que acrescentaram
à nossa vida as páginas dos romances.
José Carlos Barros
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#16/2016)
Vintertur - Vintertur EP - 2013
Lançado durante o mês de Abril de 2013, o EP de estreia, homónimo, de Vintertur está carregado de boas influências. Com um som inteligente recheado com sintetizadores negros e uma voz de fazer inveja, "Vintertur" prima no minimalismo da sua electrónica, conseguindo permanecer vibrante, melancólico, cheio de tensão e implosões rítmicas. Vintertur é bom e recomenda-se. Fiquem com "Needs" que conta com a voz de Johanne.
terça-feira, 19 de abril de 2016
Ditados Impopulares (#08/2016)
"Uma expressão não muito popular e que dá sempre fumo preto mas que as crianças mais eruditas usam para pedir mudança de fraldas à sua mãe ou ao seu papá."
Segue os Ditados Impopulares no facebook. ;)
domingo, 17 de abril de 2016
Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires 9/10 (Obra de Paulo Seara)
Lê, ou relê, as partes anteriores; 1; 2; 3; 4; 5; 6; 7; 8;
Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires
9
Era só um chá. Mas o Aires não gostava de servir chá. Era uma das poucas bebidas quentes onde não ousava meter o instrumento sexual. Um galão ainda vai. O que fazer?
Porque não aviar a bexiga naquela chávena? Qual é o mal, afinal ainda há pouco estivera a beber chá. Ao mesmo tempo poupava nas contas do bar. O cliente poderia voltar e chamar mais alguém para beber aquele chá de edição limitada, com propriedades terapêuticas. E era muito anormal no café os homens pedirem-lhe chá – pensou Aires.
Animagem (#08/2016)
"The Reward" (A Recompensa*) conta as aventuras atribuladas de dois desconhecidos que encontram um mapa, que os leva numa épica e enriquecedora demanda. Com uma história interessante e muito bem contada, o X assinala o sítio, e no final obtém-se A Recompensa.
Poesia de primeira, ao Domingo (#15/2016)
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
Álvaro de Campos
terça-feira, 12 de abril de 2016
Undenied Pleasures por Nuno Baptista (#15/2016)
Belle Ville - Inside Outside (EP) - 2013
Este EP dos Belle Ville é qualquer coisa de extraordinário. "Inside Outside" confirma que esta banda está no caminho certo na criação de uma sonoridade única onde temos a electrónica misturada com uma voz alucinante, frágil, que murmura gentilmente em cada música. Esta combinação cheia de conotações ousadas leva o Dubstep e o Dream-pop a um patamar completamente distinto. Fiquem com "Mixed Voices".
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires 8/10 (Obra de Paulo Seara)
Lê, ou relê, as partes anteriores; 1; 2; 3; 4; 5; 6; 7;
Conto do Beijo Negro com Três Grandes Conselhos de Aires
8
É dia de Páscoa na terra do Aires. Como sempre a visita pascal percorre toda a vila. Mas este ano uma nova porta irá reverenciar sua excelência o senhor Padre: a porta do Aires.
Apesar de ainda não estar toda a corrente eléctrica instalada, de grosso modo a casa está pronta para ser habitada. Na sala, ao lado da estante de livros, o Aires dá lustro às garrafas de variados vinhos espirituosos. Espera secretamente oferecer um vermute bem mexido ao senhor Padre. E arriscará largar umas gotas de urina.
Aires encontra-se feliz, investir no bar foi um golpe de génio e destruiu a concorrência. Antes, obscurecido pela dúvida e o remorso pensava que a existência se encontrava a caminho de um buraco negro e que a sorte lhe tinha dado um beijo negro. Mas felizmente o financiamento que obteve por desinfectar a cabeça do bancário da vila, que tinha sofrido uma mordedura de uma víbora quando olhava para a tratadora de cobras do circo, propiciou-lhe uma prosperidade inesperada.
E assim pôs de parte a ideia de ser modelo ao natural na escola de belas artes do Porto ou o químico cerebral que reabilitará a urina, dando-lhe um velho nome: amónio.
Voltando às celebrações pascais; o Aires ficou aborrecido, o Padre não quis beber nada, nem uma poncha. Que falta de respeito pela tradição pensou Aires.
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