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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Livros que nos devoram por Luísa Félix (#02/2015)

O Alienista

«Mas a prova mais evidente da influência de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a Câmara lhe entregou o próprio presidente. Este digno magistrado tinha declarado, em plena sessão, que não se contentava, para lavá-la da afronta dos Canjicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretário da Câmara entusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte começou por meter o secretário na Casa Verde, e foi dali à Câmara à qual declarou que o presidente estava padecendo da "demência dos touros", um género que ele pretendia estudar, com grande vantagem para os povos. A Câmara a princípio hesitou, mas acabou cedendo. 

Daí em diante foi uma colecta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. (...) Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo, ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. (...).»


Machado de Assis, O Alienista 


Em 1882, o escritor brasileiro Machado de Assis (1839 – 1908) publicou Papéis Avulsos, uma colectânea de textos que fora publicando no jornal A Estação, ao longo de cinco meses. Integrava esse conjunto de escritos «O Alienista», cuja classificação não é consensual, sendo considerado por alguns especialistas como conto, por outros como novela, dada a estrutura narrativa organizada em capítulos. 

Esta obra de ficção tem como protagonista Simão Bacamarte, um médico que, depois de ter estudado em Coimbra e em Pádua, regressa ao Brasil para se fixar na sua terra natal, Itaguaí. Casa com D. Evarista, senhora viúva que, devendo pouco à beleza e à simpatia, parece ao médico a mulher ideal para lhe dar filhos fortes. 

O interesse de Simão pelos problemas da mente leva-o a dedicar-se de corpo e alma à psiquiatria, construindo a Casa Verde, um manicómio onde pudesse internar e estudar os doentes da cidade e da região. 

Entretanto, D. Evarista, desconsolada com a falta de atenção do marido, consegue que este financie, para si e para um verdadeiro séquito, uma viagem de alguns meses ao Rio de Janeiro. Nestes meses, o número de doentes internados na Casa Verde aumenta de tal forma que a situação começa a preocupar os habitantes de Itaguaí, que vêem no regresso de D. Evarista a solução para o problema. Contudo, não só D. Evarista não só não consegue travar a obsessão do marido, como se torna mais uma vítima dessa obsessão. 

«O Alienista», longe de ser uma narrativa sisuda, diverte, ao mesmo tempo, que nos obriga a reflectir sobre a fronteira entre a sanidade e a loucura.


A autora, Luísa Félix, pode ser seguida no seu blogue, Letras são papéis.

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